POV/ ADRIAN
As semanas seguintes foram um borrão de luzes brancas e aquele cheiro estéril de antisséptico que parece grudar na alma, entranhando-se nos poros e na memória. Passei os dias em um limbo cinzento entre a mansão e o hospital, levando e trazendo as meninas como se estivéssemos todos presos em um loop infinito, uma sessão deprimente da tarde da qual ninguém podia desligar a TV. Não podíamos entrar na UTI o tempo todo, então o corredor tornou-se minha segunda casa. De lá, eu observava Sarah através do vidro. Era uma visão perturbadora; como olhar para uma boneca de cera sendo consumida por dentro, mantida funcional apenas pela força dos fios e bipes incessantes.
Eu não sabia ao certo qual era a percepção real das minhas filhas. Elas estavam mergulhadas em uma preocupação silenciosa, mas não choravam o tempo todo. Havia uma aceitação precoce em seus rostos, como se estivessem à espera de algo inevitável, um peso que as tornava adultas décadas antes do tempo. Ver a infância delas ser roubada por aquele corredor frio me doía mais do que qualquer ferida física que eu já tivesse recebido.
Eu não dormia. Cada vez que minhas pálpebras pesavam, o rosto de Clara em Goiânia surgia como uma miragem, um oásis de cor e vida. Mas, ao abrir os olhos, a realidade me golpeava com a palidez cadavérica de Sarah, presa àquele emaranhado de tubos. Eu era um prisioneiro em uma cela de vidro, vigiando uma vida que já havia partido há muito tempo.
Nas madrugadas insones, eu buscava as fotos de Clara no celular como quem procura ar no fundo do oceano. Ela estava radiante naquelas imagens. Cercada por luzes, música e sorrisos que eu já não sabia como simular. Uma parte de mim, a mais egoísta e desesperada, queria gritar para ela vir me salvar, para me arrancar daquele necrotério e me lembrar como era respirar. Queria dizer que ela era o meu oxigênio e que eu estava morrendo sufocado sem o toque dela. Mas o amor que eu sentia por ela era, pela primeira vez, maior que o meu egoísmo. Se ela estava brilhando longe de mim, que continuasse assim. Eu preferia me afogar na escuridão sozinho a puxá-la para dentro desse buraco negro comigo.
Graças aos remédios experimentais trazidos da Argentina, Sarah teve o que os médicos chamam de "janela de melhora". Recebeu alta para cuidados paliativos em casa. As meninas ficaram radiantes, uma esperança infantil e pura que me partia o coração testemunhar. Eu sabia que aquilo não era um milagre, era apenas um castelo de areia erguido em meio à tempestade, esperando a próxima maré para ser levado.
O retorno para a mansão foi, ironicamente, o momento mais difícil. O ambiente que deveria ser de festa parecia um velório antecipado. Chamei Ângela e Geovana no escritório enquanto a equipe médica instalava Sarah no quarto que seria seu último refúgio.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido