POV/ Clara
Eu sobrevivi ao meu pai. Eu sobrevivi ao Átila e às ruas. Eu sobrevivi à solidão. Eu não ia morrer nas mãos de um rato como Azazel. Ou talvez fosse.
Um dos guardas, curioso enquanto me via tentar soltar os pulsos sangrentos, cuspiu no chão e perguntou:
— Como uma coisinha insignificante, que nem você conseguiu fugir e ainda ajudar as crianças ?
Olhei para ele, meus olhos injetados de sangue, as unhas sujas de terra. Dei um sorriso macabro, as bochechas manchadas de cinzas.
— Quando eu era pequena… meu pai me trancava em quartos sem janelas. Eu aprendi a fugir antes de aprender a ler.
Eu tinha usado a mola de um colchão velho naquele cativeiro secundário para rasgar o lacre da porta. Meus dedos estavam em carne viva, as unhas penduradas, mas eu não sentia nada. A adrenalina era o único anestésico que restava.
Mas minha resistência os irritou. Azazel voltou, o rosto vermelho de ódio.
— Você é uma lutadora. Mas se prepare para sua última batalha.
Aquelas foram as últimas palavras que ouvi antes de me deixarem jogada no chão. Me encolhi no frio, flutuando entre o sono e o desmaio, sem saber onde um terminava e o outro começava. Quando me pegaram de novo, eu era apenas um peso morto. Meu corpo pesava toneladas por causa das drogas, mas minha mente ainda gritava, presa dentro de uma carcaça que não respondia.
Fui arrastada pelo túnel gelado até aquela sala de pesadelo. O tanque de vidro estava lá, sendo preenchido por uma água que parecia gelo líquido.
Eles me jogaram lá dentro sem misericórdia. O impacto da água fria expulsou o pouco ar que eu ainda guardava nos pulmões. Ouvi o som seco do topo sendo lacrado. O pânico era um fogo gelado que subia pela minha garganta.
Eu bati no vidro. Minhas unhas, já destruídas, riscaram inutilmente a superfície blindada. A água subia, invadindo minha boca, meu nariz, reivindicando cada espaço de vida em mim. Enquanto eu lutava, minha mente se fixou em uma única imagem: Adrian.
A pressão nos meus ouvidos era um rugido ensurdecedor. Meus pulmões ardiam, enviando sinais de socorro para um cérebro que já estava começando a apagar as luzes, uma por uma. Eu batia no vidro, mas meus movimentos ficavam lentos, pesados, como se eu estivesse dançando em câmera lenta sob o oceano.
E então, através do borrão da água e do vidro, eu o vi.
Quando ele me beijou, o mundo parou. A boca dele era quente, um contraste gritante com a água gelada que ainda parecia assombrar minha memória profunda. O beijo tinha gosto de proteção e de perigo. As mãos dele subiram para o meu rosto, segurando-me como se eu fosse a joia mais preciosa do seu império, os dedos firmes traçando o contorno da minha mandíbula. Era tão real. Eu sentia o calor do corpo dele, o ritmo calmo do seu coração contra o meu.""""
Ali, naquele sonho, -- não havia Azazel. Não havia sequestro. Havia apenas a paz de ser dele.
Eu sorri contra os lábios dele, querendo morar naquele momento para sempre. "Eu te amo", eu tentei dizer, mas minha voz começou a ecoar, ficando distante, como se eu estivesse sendo puxada para o fundo de um poço novamente. O cenário da mansão começou a desbotar. O calor do beijo dele foi substituído por uma dor aguda no peito e um som de bips metálicos.
Eu não queria acordar. Eu queria ficar no beijo. Mas a realidade é um monstro que não aceita "não" como resposta.
O beijo do Adrian no meu sonho ainda queimava nos meus lábios quando o mundo decidiu me expulsar daquela paz.”
O beijo teve gosto de Paraiso pós-morte.
Eu estava morta. Mesmo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido