Saímos de Balneário Camboriú cedo, com o cheiro de protetor solar ainda grudado na pele e aquela areia teimosa escondida nas dobras das mochilas. A estrada se estendia diante de nós como uma promessa de aventura, e o SUV preto, que antes parecia um tanque de guerra intimidador, agora era o nosso refúgio.
Paramos para comer logo depois. E depois de novo. E mais uma vez. Nosso cardápio era o pesadelo de qualquer nutricionista: coxinhas, batatas fritas, cachorros-quentes, refrigerantes e picolés.
— Se a Adelaide estivesse aqui... — murmurei, dando uma mordida generosa em uma coxinha gigante enquanto olhava para o painel do carro cheio de embalagens — ela já teria confiscado até essa batatinha.
Adrian arqueou a sobrancelha, mas não hesitou em dar uma mordida no seu cheeseburger de posto. Ele limpou o canto da boca com um guardanapo e, para minha surpresa, imitou a voz austera e indignada da governanta:
— "Salgado não é café da manhã, almoço ou jantar, senhorita Clara! Onde já se viu tamanha desordem?"
Eu ri tão alto que as meninas, no banco de trás, começaram a rir junto, mesmo sem entender a piada interna. O carro virou um verdadeiro parque de diversões sobre rodas. Brincamos de “Adivinha o que estou vendo”, depois de “Adivinha a música”, e o auge foi o concurso de “Quem imita melhor o barulho de um caminhão?”.
Adrian, o bilionário que comandava impérios, perdeu feio. Ele insistia que um caminhão fazia algo parecido com um “bum”, o que fez Ângela e Geovana caírem na gargalhada.
— Papai, você é péssimo nisso! — Geovana exclamou, entre risos.
Ele apenas deu de ombros, mas vi pelo espelho retrovisor que o sorriso dele era genuíno. Entre uma curva e outra, as meninas cantavam, eu ria até a barriga doer e Adrian disfarçava a satisfação com a mão firme no volante, mas os olhos dele... eles brilhavam de um jeito diferente quando pousavam em mim.
O dia correu assim: asfalto, risadas e um calor crescendo dentro do meu peito que não tinha nada a ver com o sol lá fora. Era a sensação de pertencer.
Quando a placa indicando "Curitiba — 30 km" surgiu, o céu já estava pintado de um laranja dramático, digno de um quadro. Parecia que tínhamos atravessado três países em um só dia, tamanha era a mudança de cenário e de espírito.
Chegamos ao hotel exaustos e, como eu gostava de pensar, "sujos de vida". As meninas mal tocaram o chão e já correram para as camas como gatinhos famintos por travesseiros. Adrian se despediu com um “Boa noite” grave, aquela voz que parecia vibrar no chão do corredor, e entrou no quarto ao lado.
Eu mal tive forças para o meu ritual. Tomei um banho rápido, deixei a água quente levar o cansaço e a areia, e me joguei na cama. Dormi antes mesmo de conseguir terminar um pensamento sobre o que aquela viagem estava fazendo com o meu coração.
Foi o tipo de sono que apaga o mundo. E, naquele momento, eu não precisava de mais nada.
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Acordei com o cheiro inebriante de pão de queijo e café fresco passando por debaixo da porta. O café da manhã no hotel seguiu a tradição da nossa viagem: o triunfo das besteiras. Waffles com calda, suco de caixinha e bolo de chocolate.
— Hoje é dia de zoológico! — Ângela anunciou, erguendo os braços como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Partimos com o sol ainda preguiçoso e as mochilas estufadas de lanchinhos que fariam qualquer nutricionista chorar. Curitiba nos recebeu com aquele ar fresco e o zoológico era imenso.
Os elefantes vieram primeiro. Gigantes. Lentos. Majestosos.
— Eles parecem carregar o mundo inteiro nas costas — sussurrei, genuinamente encantada com a calma daqueles animais.
Adrian parou ao meu lado. Senti o calor do corpo dele emanando, mas ele não estava olhando para os elefantes. Ele estava olhando para mim.
— E continuam em pé — ele respondeu, a voz grave vibrando no meu peito. Parecia que ele não falava dos animais, mas de algo mais profundo. De resiliência. De alguém.
— Olha o tubarão! — Ângela gritou, colando o nariz no vidro.
— Eles... eles podem pular para fora? — perguntei, checando as rotas de fuga.
Adrian se inclinou, falando bem perto do meu ouvido, o hálito quente arrepiando cada pelo do meu corpo: — Se ele vier, eu te empurro para trás de mim.
— Que cavaleiro — revirei os olhos, tentando esconder o fato de que meu coração tinha acabado de dar um salto olímpico.
As meninas saíram correndo atrás de um carrinho de picolé e, por alguns segundos, o mundo em volta desapareceu. Ficamos sozinhos. Eu sorrindo, ele me observando com uma intensidade que parecia querer decifrar cada segredo meu. No meio de rugidos e penas, Adrian era o único predador que realmente me tirava o fôlego.
No fim do dia, paramos em um hotel simples de beira de estrada. As meninas apagaram antes mesmo de as cabeças tocarem o travesseiro. Tive que fazer um esforço hercúleo para acordá-las apenas para tirar os tênis e escovar os dentes.
Eu estava exausta, sentada na beira da cama, quando Adrian apareceu na porta segurando o meu travesseiro que tinha ficado no carro.
— Você também precisa descansar, Clara. E tomar um banho.
— Eu estou indo... só estou calculando se ainda vale o esforço de ficar consciente — brinquei, fechando os olhos por um segundo.
— Vale — ele disse, entregando o travesseiro e mantendo o olhar firme no meu. — As meninas precisam de uma babá saudável amanhã. E eu também.
Era estranho e, ao mesmo tempo, terrivelmente reconfortante. Em meio a toda aquela logística, àquelas filhas e à estrada, ele sempre encontrava um jeito de lembrar que eu também estava ali. Que eu também importava.

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