Pov/ Clara
Acordei com uma sensação estranha de conforto. Não era apenas calor — era um tipo de abrigo que eu não conhecia, como se o mundo tivesse me esquecido ali por algumas horas. Abri os olhos devagar, ainda sonolenta, e levei alguns segundos para entender que aquele não era o quarto de hóspedes. A cama era grande demais. Macia demais. E o teto… alto demais.
Eu estava no quarto do Adrian.
A luz do sol carioca entrava pelas frestas da cortina, dourada e indecente, iluminando cada detalhe do luxo excessivo ao redor. Tudo ali parecia caro, calculado, impecável — exatamente como ele. O contraste com a confusão dentro de mim era quase irônico.
Virei o rosto para o lado e o vi.
Adrian estava em pé, de frente para o espelho, usando apenas uma toalha branca amarrada na cintura. Meu corpo reagiu antes da razão. A respiração travou. O coração bateu errado. À luz do dia, sem sombras para suavizar nada, ele parecia ainda mais… real. As costas largas, os ombros fortes se movendo enquanto ele passava a mão pelo rosto, como se estivesse cansado. Humano. Perigosamente humano.
Eu já tinha visto o corpo do Imperador.
Mas aquilo era diferente.
Era o Adrian.
E era demais.
Como podiam existir dois homens tão absurdamente parecidos — e igualmente devastadores — orbitando a minha vida ao mesmo tempo?
Ele percebeu que eu havia acordado pelo reflexo no espelho e sorriu de canto. Um sorriso discreto, um pouco cansado, mas verdadeiro.
— Bom dia, passarinho. Dormiu bem?
Engoli em seco e puxei o lençol até o queixo, sentindo o rosto queimar.
— Bom dia… — murmurei. — Eu não devia ter dormido aqui.
— Você apagou no meu ombro antes mesmo de chegarmos — respondeu, caminhando até a beira da cama. O cheiro de sabonete e pele quente me envolveu, me deixando levemente tonta. — Achei melhor te trazer para perto.
Para perto.
— Quer que eu peça o café no quarto ou prefere encarar a fera lá embaixo?
Respirei fundo, tentando recuperar o mínimo de dignidade que ainda me restava.
— Eu aguento a fera.
Mal sabia eu que aquele café da manhã seria o início do fim.
Estávamos todos à mesa. As meninas riam, falavam ao mesmo tempo, e por alguns minutos aquilo pareceu… normal. Familiar. Quase uma família. Foi quando Aurora decidiu atacar.
— Adrian, querido, precisamos falar sobre a TechGlobal — disse, com a voz melada de veneno. — A empresa está em dificuldades, e você tem o dever de nos salvar com a sua fortuna. Afinal, você só tem o que tem por causa das ações que meu marido deixou.
O maxilar do Adrian travou. O ar ficou pesado, denso demais para respirar com facilidade.
— Eu renunciei a cada centavo dessa herança maldita há anos, Aurora — ele respondeu, controlado demais. — Devolvi tudo para que você me deixasse em paz. O império que eu construí em Porto Alegre não deve nada a essa família.


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