POV/ Clara
Eu corri.
Meus pulmões ardiam como se eu estivesse engolindo brasas, mas eu não conseguia parar. O asfalto do estacionamento do shopping parecia se esticar infinitamente sob os meus pés, uma língua cinzenta que tentava me lamber e me puxar de volta para o ralo. Eu só ouvia aquela voz. Aquela palavra que agia como um gatilho para o meu pior inferno: "Clarinha... Clarinha..."
Atravessei ruas sem olhar, o som de buzinas e o guincho de freadas bruscas ecoando como ruídos distantes de um rádio mal sintonizado. O gosto de metal subiu pela minha boca o gosto do pânico puro. Quase fui atropelada duas vezes, mas meu corpo agia por um instinto cego de sobrevivência. Corri cerca de três quilômetros até sentir o vento frio e úmido da Ponte do Guaíba bater no meu rosto. Parei ali, segurando no metal gelado da guarda, sentindo o mundo girar violentamente sob meus pés.
Na minha mente, o passado não eram apenas lembranças; eram flashes violentos e cruéis.
Eu sentia de novo o cheiro de suor e mofo daquele quarto no Pará. Via o rosto da minha mãe. Via o dia em que acordei dopada, sentindo mãos asquerosas percorrendo meu corpo enquanto meu pai filmava tudo com a frieza de um espectador assistindo a um ensaio técnico. Lembrei do grito da minha mãe tentando me defender e do Wagner a arrastando para o quarto dizendo que ia "corrigi-la".
Ela não saiu de lá viva. Ele a matou por ela tentar me defender.
Não foi preso porque não havia testemunhas e as provas eram inconclusivas. A minha palavra não valeu porque eu estava drogada, mas o fato que ele me drogou nunca importou.
Para não me explorar eu tive que trabalhar muito dos 11 aos 15 anos. Mas depois de um tempo e boatos dos colegas da escola descobrir que ele ainda me drogava com o almoço ou o jantar me filmava e postava na internet. Me vendia como se eu fosse picolé.
O celular no meu bolso vibrava sem parar. Isadora.
Atendi com os dedos dormentes, soluçando tanto que o ar simplesmente não chegava aos pulmões. Quando ela me encontrou na ponte, minutos depois, eu desmoronei. Isadora não fez perguntas. Ela apenas me envolveu em um abraço que cheirava a casa, a amaciante e a segurança. Ela me beijou no topo da cabeça e me segurou enquanto meu corpo inteiro convulsionava de pavor.
Com a Isa, eu não precisava de máscaras. Ela era a única pessoa no mundo que conhecia cada uma das minhas cicatrizes, porque ela esteve lá quando elas ainda sangravam.
Nós nos conhecemos na escola, anos atrás. Ela era a veterana rebelde do terceiro ano, com 17 anos; eu era a caloura invisível e assustada do primeiro, com 15. Naquela época, os boatos já apodreciam os corredores. Diziam que meu pai fazia coisas horríveis comigo, que eu era "estragada". Isadora ouviu, mas em vez de me julgar, ela me estendeu a mão.
— Eu vou embora daqui, daqui uns anos. Clara — ela me disse uma vez, quando me encontrou escondida no banheiro, trêmula, depois de eu ter fugido de casa pela segunda vez. — E eu venho te buscar. Não desiste até lá.
Houve uma noite, a mais escura de todas, em que eu só queria que a dor parasse. Tentei acabar com tudo, mas a Isadora me salvou. Ela me puxou de volta do abismo e prometeu que seríamos uma família. E nós nos tornamos uma pequena família.
Fomos morar em um puxadinho minúsculo. Ela tinha 18, eu 16. Ela trabalhava dobrado em empregos que odiava para me sustentar e pagar meu cursinho, enquanto eu ainda terminava o colégio. Lembro do dia em que meu pai tentou me levar à força daquela casinha e a Isadora, sem hesitar, descarregou um spray de pimenta nos olhos dele.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido