POV/ CLARA
A saudade do Imperador me atingiu como um soco no estômago. Com o Imperador era mais simples. Ele mandava, eu obedecia. Não havia essa confusão de sentimentos, esse "frio na barriga" que parecia errado. Ele tinha tentado marcar dois encontros desde que saí do hospital, mas respeitou quando eu disse que não estava pronta. Essa consideração ou falta de interesse dele me tocou disse que estava com dor nos rins e por isso não iria.
Meu plano já estava traçado: depois que o furacão do aniversário passasse, Isadora e eu fugiríamos para uma praia. Só nós duas. Muito sorvete, sol, silêncio e, principalmente, zero homens.
Mas a festa estava apenas começando. Os convidados chegavam, a orquestra afinava os instrumentos e as meninas me puxavam para o centro do salão. Era hora da apresentação.
Caminhei para o meio da pista, sentindo o olhar de Adrian queimando em minhas costas. Eu ia dançar para as meninas, mas, no fundo, eu sabia que cada passo seria uma tentativa de provar para mim mesma que eu ainda estava aqui. Que eu não era apenas uma vítima e que me reergui.
O burburinho das conversas morreu quando a orquestra deu as primeiras notas de um modão sertanejo, mas com arranjos de violino que elevavam a música a algo épico. Entrei no centro da pista com Ângela e Geovana. Elas irradiavam felicidade, os vestidinhos rodando enquanto iniciávamos a coreografia que tínhamos ensaiado exaustivamente.
Adrian caminhou em minha direção com uma elegância predatória.
— Clara quando a festa terminar eu quero conversa com você te contar uma coisa. — ele me disse e eu acenei confirmando. Imaginando mil coisas. Será que ia me expulsar da casa dele? Dizer que me odeia? Ou sei lá que gosta de mim? Não fazia ideia, porém era hora da dança.
E quando nossas mãos se tocaram para o início da valsa, o mundo ao redor simplesmente se dissolveu. A orquestra suavizou o tom, e os primeiros acordes de "Sentimentos São" começaram a ecoar pelo salão. Era a nossa música. O "modão" tinha ficado para trás, e agora o clássico do filme a bela e a fera trazia uma elegância quase surreal para o momento.
“Sentimentos são... fáceis de mudar... mesmo entre quem não vê que alguém pode ser seu par.”
A voz da cantora preenchia os espaços vazios da mansão, mas para mim, o mundo tinha se reduzido ao homem à minha frente. Adrian me conduzia com uma maestria que me deixava tonta. Seus dedos apertavam minha cintura com firmeza, e cada vez que nossos corpos se roçavam, eu sentia uma descarga elétrica. Eu via o brilho nos olhos dele, algo que ia muito além de uma simples "atuação" para os convidados.
“Basta um olhar que o outro não espera, para assustar e até perturbar...”
E me perturbava. Como me perturbava. A mão dele subiu levemente pelas minhas costas, e o calor da sua palma atravessou o tecido do vestido amarelo. Eu me sentia flutuando. Olhei para o lado e vi as gêmeas, Ângela e Geovana, girando ao nosso redor com seus vestidos de princesa, os rostinhos iluminados pela mais pura felicidade. Elas batiam palmas no ritmo da valsa, vivendo o próprio sonho.
No ápice da canção, quando a música diz que “nada o detém, é uma chama acesa”, Adrian me girou com força. O mundo virou um borrão de luzes e cores. Quando ele me puxou de volta, não houve espaço para hesitação. O impacto do meu peito contra o dele me tirou o fôlego, e antes que eu pudesse processar, ele inclinou o rosto. Os lábios dele encontraram os meus.
O beijo aconteceu diante de centenas de olhos. A elite de Porto Alegre, os fotógrafos, os curiosos... ninguém mais importava. Foi um beijo profundo, carregado de uma sede que parecia guardada há séculos. A mão dele mergulhou no meu pescoço, segurando-me com uma possessividade que fez meus joelhos fraquejarem.
— AEEEEEE! CONSEGUIRAM! — O grito das gêmeas furou a bolha de silêncio que tinha se formado ao nosso redor. Elas pulavam, davam saltinhos e se abraçavam. — A fera beijou a Bela! A fera beijou a Bela!
O salão inteiro explodiu em aplausos. As pessoas sorriam, achando que era a cena final de uma apresentação coreografada, um golpe de marketing ou apenas uma demonstração de amor. Mas para mim, o gosto de hortelã e uísque na boca dele, a pressão da sua língua contra a minha e o jeito que ele me prendia contra o corpo... tudo aquilo era um gatilho.
Ele beija como o Imperador. A frase martelou na minha cabeça, roubando todo o encanto. Eu estava nos braços do meu patrão, sob as luzes da sua mansão, mas meu corpo insistia em me dizer que eu estava nos braços do homem que me dominava no Clube Proibido.
Eu estava ofegante quando nos separamos. Olhei para Adrian, esperando ver o patrão gentil, mas por um segundo, vi o olhar predatório do Imperador.
— E quem é essa aí? — Sara perguntou, lançando-me um olhar de cima a baixo que me fez sentir como se eu estivesse nua e suja no meio do salão.
— É a nossa babá, mamãe! — Geovana respondeu, ainda abraçada à cintura dela.
O mundo ficou cinza. O barulho da música, os aplausos, os flashes... tudo se tornou um zumbido insuportável. Eu acabei de ser beijada pelo homem mais gentil que surgiu na minha vida, e agora ele estava parado, em silêncio, enquanto sua "família perfeita" se reunia diante de toda a imprensa de Porto Alegre.
Adrian tentou me olhar, tentou dizer algo, mas eu dei um passo para trás. Eu me sentia minúscula. Uma intrusa que ousou sonhar alto demais.
Isadora surgiu ao meu lado, os olhos faiscando de ódio para Sara, e segurou meu braço com força.
— Vamos, Clara. Não fica aqui. Vamos sair agora.
Eu me deixei ser puxada. Meus pés pareciam chumbo. No corredor, antes de dobrar a esquina para os fundos da mansão, eu cometi o erro de olhar para trás uma última vez.
Lá estava ele. Adrian, em pé, entre Sara e as filhas. Os flashes dos fotógrafos disparavam como metralhadoras, capturando a imagem perfeita para a capa de todos os jornais de amanhã: "A Família Cavallieri Reunida".
FIM POV/ CLARA

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