Capítulo 221 — O Tribunal Feminino
Emma Anderson
Ver a Fernanda descer daquela suíte de cabeça erguida, segurar a mão da Katlyn e puxá-la para uma conversa franca e reservada na sala me deu uma aula silenciosa de maturidade, empatia e grandeza de espírito.
Eu sabia que a história entre o Ambrose e a Katlyn tinha sido um desastre, cheia de mágoas e feridas que demoraram para cicatrizar. Mas a postura da Fer, enfrentando os próprios medos para estender a mão a quem precisava, foi simplesmente admirável.
— Meninas… posso fazer uma pergunta meio idiota? — a voz mansa da Aubrey quebrou os meus devaneios.
Bree estava acomodada na espreguiçadeira ao lado da minha. Como ela ainda estava recuperando algumas memórias e preenchendo as lacunas dos últimos acontecimentos após o trauma, certas dinâmicas do grupo ainda pareciam um quebra-cabeça confuso para ela.
Ajeitei a minha saída de praia sobre o biquíni vermelho e me virei para a minha amiga:
— O que foi, meu amor? Pode perguntar o que quiser.
Aubrey apontou discretamente com o queixo em direção à porta de vidro da sala de estar.
— Quem é aquela moça que chegou tão assustada e fez todo mundo travar no jardim? Eu sinto que já ouvi o nome dela em algum lugar, mas a minha cabeça ainda dá umas falhadas… Por que o clima pesou tanto quando o Ozzie foi falar com ela?
Juliet puxou a cadeira para mais perto, trocando um olhar compreensivo comigo antes de responder.
— O nome dela é Katlyn Pratt, Bree. Ela e o Ambrose tiveram um longo relacionamento. O término deles foi horrível, cheio de ressentimentos deixaram o Ozzie completamente destruído.
— E por que ela apareceu aqui hoje do nada? — Bree franziu a testa, curiosa.
— Porque ela está vivendo um pesadelo real — completei em tom baixo e sério. — A Katlyn se envolveu com um homem extremamente abusivo, violento e poderoso em Manhattan. Ela tentou romper o vínculo recentemente, mas o sujeito a ameaçou. Ela procurou o Ambrose há algumas semanas porque ele era a única pessoa com recursos que ela conhecia para pedir socorro.
Aubrey levou as duas mãos ao peito, os olhos verdes marejando em uma compaixão genuína.
— Meu Deus… Que horror! Coitada dessa garota… Ninguém merece passar por uma violência dessas, gente. Dá um aperto no coração, dá tanta dó ver uma mulher passar por isso…
Taylor, que estava recostada na espreguiçadeira, tirou os óculos escuros com um estalo e soltou a língua afiada.
— Ah, não, Breezinha! Pelo amor de Deus! Quem tem dó é o violão. A gente tem ódio, vontade de socar, estrangular, de…
— Taylor! — repreendi de imediato, revirando os olhos.
— O quê, Emma?! — Tay reb**eu. — A mulher aprontou horrores com o Ozzie, pisou no cara, fez o coitado carregar um trauma por meses e agora b**e na porta da família dele pedindo asilo político e proteção armada?! Eu não engulo essa história tão fácil assim, não! Para mim, cobra criada morre picando!
Juliet tocou suavemente o joelho da Taylor, encarando a nossa amiga com aquela serenidade e sabedoria que só ela tinha.
— Tay, para um minuto e respira. Tenta olhar para essa situação com outros olhos, pelo menos por um instante. Não olhe para a Katlyn como a ex que magoou o Ambrose… Olhe para ela como uma mulher. Uma mulher que estava sendo agredida, trancada, silenciada e que está fugindo de um agressor perigoso. Se fosse qualquer uma de nós naquela situação, se fosse uma desconhecida na rua, você seria a primeira a puxar a arma da cintura para defendê-la. Por que com ela tem que ser diferente só por causa de um erro antigo?
As palavras da Ju pairaram no ar quente da piscina com uma força esmagadora. Damien já tinha me contado sobre a história da Ju e do Noah, e até mesmo ela me disse uma coisa ou outra. Ela entendia bem o que era viver na mão de um abusador.
Olhei para a Tay e vi a postura desafiadora dela vacilar no mesmo segundo. O queixo empinado baixou devagar, os lábios se cerraram e um brilho de reflexão profunda atravessou seus olhos. Ela engoliu em seco, olhou para a própria bebida e não disse uma única palavra para rebater.
A mensagem da Ju tinha entrado em cheio.
Nesse exato momento, o som da porta de vidro de correr se abrindo chamou a nossa atenção.
Fernanda e Katlyn cruzaram o gramado verde lado a lado, caminhando em direção à nossa roda. A expressão da Fer era de pura segurança e determinação, enquanto a Katlyn mantinha os passos contidos, ainda receosa de como seria recebida.
Todas as meninas da roda se ajeitaram nas cadeiras, os olhares convergindo para a recém-chegada.
Olhei para a Jen e para a Juliet e vi que as duas já estavam se colocando de pé com sorrisos acolhedores nos lábios. Naquele instante, decidi enterrar qualquer julgamento prévio ou desconfiança que eu ainda guardava dentro de mim.
A Fernanda tinha dado o exemplo, e eu não seria a pessoa a manter portas fechadas para quem precisava de abrigo.
— Voltamos meninas, acho que não precisamos de apresentações. Todo mundo aqui sabe quem é a Kat.
Me levantei da minha espreguiçadeira, ajeitei a postura e dei dois passos à frente, parando diante da Katlyn.
— Naquele dia no apartamento da Tay e do Dom nós não fomos devidamente apresentadas… — comecei com um tom de voz suave e aberto, estendendo a minha mão direita na direção dela. — Prazer, eu sou a Emma.

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