Capítulo 226 — Só nós dois…
Emma Anderson
Parei diante da porta de madeira maciça da nossa suíte. Puxei o ar com força para os pulmões, ajustei a postura e girei a maçaneta devagar.
Assim que empurrei a porta, me deparei com o quarto na penumbra, com as cortinas semicerradas. Damien estava deitado no meio da cama, de barriga para cima, com os braços cruzados atrás da cabeça e os olhos azuis cravados no teto branco, completamente absorto em um abismo particular de pensamentos.
Caminhei em silêncio pelo carpete felpudo. Tirei os meus chinelos, contornei a cama e me deitei ao lado dele.
Sem dizer uma única palavra, Damien descruzou os braços, virou o tronco de lado e me puxou com firmeza para o seu peito largo.
Enterrei o meu rosto na pele quente dele, enquanto ele me envolvia com os dois braços fortes ao redor da minha cintura e depositava um beijo longo, carinhoso e demorado no topo da minha cabeça.
Ficamos ali estendidos por vários minutos. Apenas o som compassado das nossas respirações preenchia o quarto silencioso, até que Damien decidiu quebrar a barreira.
— A Izabel nunca gostou de mim… E, para ser bem sincero com você, eu também nunca gostei dela — ele começou com a voz rouca, sem desviar os olhos do teto.
Apenas permaneci quieta em seu peito, escutando com toda a minha alma.
— Quando a Clara e eu decidimos nos casar, ela fez um escândalo — ele continuou, soltando o ar ruidosamente. — Dizia na cara da minha falecida esposa que eu não a amava, que eu era um homem frio e que nunca a faria feliz de verdade… Mas a Clara bateu o pé e casou assim mesmo. No início, nós dois pensamos que ela tinha aceitado a nossa união, mas foi pura ilusão da nossa parte. Do dia da cerimônia até o dia trágico daquele acidente, a Izabel nunca desistiu de tentar nos separar. Eu só descobri muito tempo depois que toda aquela implicância era motivada unicamente por dinheiro; ela não tinha um motivo nobre. Era pura ganância para tentar retomar o controle dos fundos da família.
A dor e o peso da frustração vibravam em cada palavra que ele pronunciava.
— A Izabel não gostava de mim, nunca demonstrou um pingo de amor pelo próprio neto… Mas eu nunca desejei a morte dela. Eu queria aquela mulher bem longe da nossa vida, sim, eu queria com todas as minhas forças. Mas eu jamais desejei que tirassem a vida dela… E muito menos que ela morresse de uma forma tão covarde e suja como essa. Um tiro pelas costas, Emma? Que tipo de covarde atira em uma mulher indefesa pelas costas?!
Senti os braços dele se apertarem com mais força ao redor do meu corpo, como se tentasse me proteger de um perigo invisível.
— Mas o que está me consumindo por dentro de verdade, amor… O que está me corroendo a alma é saber que eu não pude proteger a Clara da loucura da Verônica no passado… mas eu poderia ter evitado a morte da Izabel hoje cedo.
Ergui a cabeça no mesmo segundo, apoiando o queixo no peito dele para encará-lo nos olhos.
— Damien… Do que você está falando?
Vi um brilho espesso de culpa e mágoa queimar nos olhos azuis dele.
— Eu a expulsei da minha casa com frieza, Emma. Fui eu quem empurrou a Izabel para as mãos da Verônica… E fui eu quem jogou na cara dela a suspeita sobre o acidente da Clara. Se eu não tivesse dito nada, se eu tivesse ficado calado, ela não teria ido tirar satisfações com aquela assassina e agora ela ainda estaria viva.
— Não faz isso com você mesmo, Damien! — interrompi com a voz firme, porém banhada de doçura, levando a minha mão ao rosto dele e acariciando a sua barba por fazer. — Não ouse puxar para os seus ombros uma culpa que não te pertence!
Ele me encarou com a mandíbula travada, ouvindo o meu apelo.
— Eu também jamais desejaria a morte da Izabel, por pior que ela tenha sido conosco… Mas ela era uma mulher adulta e fez as próprias escolhas. Foi a Izabel quem escolheu desprezar o Luca naquele dia. Foi ela quem escolheu se aliar à Verônica, aceitar a hospedagem daquela criminosa e confiar nas mentiras dela. Não foi você quem tomou essas decisões por ela, Dam. Você apenas defendeu a sua casa e a memória da mãe do seu filho com a verdade.
Damien fechou os olhos por um breve instante, absorvendo as minhas palavras. Ele inclinou o rosto para baixo e colou os seus lábios nos meus em um selinho longo, terno e cheio de gratidão.
— Eu te amo tanto, Emma… — ele sussurrou contra a minha boca.
Sorri de leve, sentindo o calor do amor dele me envolver.
— Eu também te amo com toda a minha vida, Dam.
Me inclinei sobre ele e o beijei de verdade, um beijo calmo, profundo, carregado de ternura e devoção mútua, reafirmando o nosso porto seguro no meio de tantas tempestades.



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