Capítulo 250 — Redenção
Katlyn Pratt
O ar congelou dentro daquela pequena sala de espera. O peso daquelas quatro palavras ecoou pelas paredes como o romper de uma represa que continha anos de dor, vergonha e silêncio sufocado.
Virei o rosto devagar, as lágrimas paralisadas nas maçãs do meu rosto. Ambrose estava parado a dois passos da porta, as mãos pousadas frouxas nos bolsos e os olhos azuis fixos nos meus.
Não havia resquício daquela fúria fria que o dominava no passado, nem a sombra do homem machucado que se fechou para o mundo. Havia apenas uma serenidade madura, desarmada.
Ao meu redor, as meninas entenderam o recado sem que nenhuma palavra precisasse ser dita. Taylor levantou-se em silêncio, puxando Aubrey delicadamente pela mão. Emma trocou um olhar cúmplice e sereno comigo, tocando o meu ombro em apoio.
Fernanda foi a última a se levantar; ela se aproximou do noivo, pousou a mão com carinho infinito no peito largo dele e deu um beijo suave no canto de seus lábios antes de sussurrar algo inaudível para ele. Ambrose retribuiu com um aperto doce em seus dedos.
A porta se fechou atrás delas com um clique quase imperceptível.
Ficamos apenas nós dois. O homem que quase destruí no passado e a mulher quebrada que eu me tornei.
Ambrose respirou fundo, puxou a cadeira onde Taylor estava sentada e a posicionou bem na minha frente. Ele se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos, quebrando a distância entre nós dois até estarmos no mesmo nível.
— Eu te perdoo, Katlyn — ele repetiu, com o timbre rouco e firme, sem qualquer vacilo. — E estou te dizendo isso olhando nos seus olhos, não porque o tempo passou ou porque a Fernanda me fez um homem melhor, mas porque você precisa ouvir isso para conseguir respirar de novo.
Cobri a boca com as duas mãos trêmulas, um soluço rasgado escapando da minha garganta.
— Como você pode me perdoar, Ozzie? Como você consegue me olhar nos olhos depois do inferno que eu fiz você passar?
Ele passou a mão pelo rosto, o olhar recaindo sobre as próprias palmas por um breve instante antes de voltar para mim.
— Porque hoje eu entendo que nós dois éramos duas pessoas feridas tentando encontrar sentido na escuridão. Eu passei mais de um ano da minha vida me culpando todos os dias, Katy. Você não faz ideia do que é acordar no meio da noite enxergando as minhas próprias mãos manchadas do seu sangue, lembrando de cada golpe que dei em você naquele quarto vermelho sem que você pronunciasse a porra da palavra de segurança! Eu me tornei um monstro na minha própria cabeça. Fiquei em um celibato absoluto, me punindo, achando que a violência tinha nascido dentro de mim.
As lágrimas desciam pelo meu rosto. A vergonha que eu carregava daquela noite nunca tinha sido dita em voz alta para ninguém.
— Não foi você, Ozzie… — minha voz quebrou em pedaços, as palavras saindo arrastadas pelo choro. — Nunca foi você. Fui eu. Eu que te empurrei para aquele precipício.
— Por que, Katy? — a pergunta dele não carregava rancor, apenas a necessidade genuína de fechar uma ferida que ficou aberta. — Eu te pedi em casamento. Eu estava apaixonado por você, queria rasgar aquele contrato imundo de submissão, queria te dar uma vida de verdade, uma casa, um futuro. E você recusou, mas insistiu para que continuássemos nos trancando em um quarto cheio de regras doentias. E naquela noite… você me provocou até o meu limite. Por que você não usou a palavra de segurança? Por que você me deixou te bater até apagar?!
Apertei o tecido da minha calça com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Encarei Ambrose, despindo a minha alma diante dele sem qualquer escudo.
— Porque eu me odiava tanto, Ambrose… Eu sentia tanta vergonha de quem eu era, do que eu sentia e dos meus próprios vazios, que na minha cabeça doentia daquela época, eu merecia ser castigada. Quando você disse que me amava, aquilo me apavorou. O amor parecia algo puro demais para alguém tão suja e vazia quanto eu me sentia. Eu achava que não merecia ser a esposa de ninguém. Não merecia um homem bom como você. E quando você me castigou… eu achei que se eu sentisse dor física, a dor que queimava na minha alma ia calar a boca. Eu não usei a palavra de segurança porque eu queria ser destruída. Eu usei a sua raiva e a sua mão para me punir por tudo o que eu achava que tinha de errado comigo.
Ambrose fechou os olhos com força, soltando o ar pelo nariz em uma respiração pesada e cortada pela dor. O peito dele subiu e desceu com violência.
— Você me usou como o seu próprio carrasco, Katy… — ele murmurou com a voz embargada.
— Eu sei! — solucei, o desespero tomando conta de mim. — Eu sei, e essa é a minha maior vergonha! Eu quase acabei com a sua vida, quase fiz você ser preso por algo que eu provoquei deliberadamente! Eu fodi com a sua mente, te deixei em pedaços e te arrastei para o meu próprio abismo. Por isso eu nunca consegui me perdoar. Porque você quase perdeu a sua alma por minha causa!
Ambrose estendeu as mãos grandes e quentes, envolvendo as minhas duas mãos geladas e trêmulas entre as suas. O aperto dele era firme, real, uma âncora no meio da minha tempestade.
— Olha pra mim, Katlyn.
Ergui os olhos encontrando o olhar dele.
— Aquilo ficou no passado — Ambrose falou com uma autoridade mansa, os olhos brilhando com uma compaixão pura. — Nós éramos imaturos e estávamos perdidos em um jogo perigoso de poder que nós não sabíamos controlar. Eu errei em perder a mão, e você errou em se odiar tanto a ponto de buscar a própria destruição no meu quarto. Mas acabou. Eu sobrevivi, me curei e encontrei na Fernanda o amor que eu sempre procurei. E você sobreviveu a um cativeiro, sobreviveu a um psicopata de verdade e está aqui, inteira. Eu não guardo nenhuma mágoa de você, Katy. Absolutamente nenhuma. O meu perdão é seu por inteiro. Deixa essa culpa morrer hoje.
Aquelas palavras desceram sobre o meu peito como um bálsamo milagroso, quebrando as correntes invisíveis que me prendiam. Mas a dor no meu estômago não se desfez por completo. A imagem de outra maca, de outro homem ensanguentado, invadiu meus pensamentos.
— E agora o Bruno… — sussurrei, a voz tremendo de medo. — Eu achei que tinha aprendido, Ozzie. Mas parece que a história se repete. Eu olho para o Coletti e vejo a mesma tragédia se desenhando.
Ambrose ergueu uma sobrancelha, sem soltar as minhas mãos.
— O que você sente por ele, Katy?

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