Estávamos ali, lado a lado no sofá, ele compenetrado no laptop e eu fingindo assistir à TV. O silêncio confortável, até que a pergunta escapou antes que eu pudesse evitar:
— A sua mãe sabe que você está morando aqui?
Ele mal ergueu os olhos, com aquela frieza costumeira.
— Por que ela deveria saber?
Revirei os olhos, sem me importar se ele visse.
— Porque, se soubesse, já teria invadido meu apartamento com aquele clube de senhoras chiques dela. Ia me chamar de ladra do filho precioso, ou alguma outra bobagem.
Alexander suspirou e respondeu com uma tranquilidade perturbadora:
— Ela não ousaria falar mal de você de novo.
O encarei, cética.
— Como isso é possível? Ela cortou a língua?
Dessa vez, ele levantou o olhar para mim com uma paciência fria, como se a explicação fosse óbvia demais para discutir.
— Porque você está acima dela agora, Charlotte. É a esposa do CEO. Ela depende da minha… generosidade. — Ele sorriu, um sorriso quase imperceptível. — Nem um cachorro morde a mão que o alimenta.
Ouvir Alexander falar da mãe assim era desconcertante, e, ainda que me custasse admitir, provocava um arrepio estranho.
— Você é CEO da empresa que o marido dela deixou para você. Se a irritar de verdade, ela ainda pode tirar tudo de você — insisti, quase esperando uma reação.
Ele fechou o laptop, se virando para mim com um olhar sério, porém quase suave.
— Está enganada. Eu não herdei a empresa. Eu assumi, Charlotte. Obriguei meu pai a vender todas as ações, todos os direitos para mim. Hoje, sou o CEO porque sou o único dono. E, por misericórdia, poupei a Jackson Speredo do escândalo de uma falência pública.
Fitei Alexander, tentando processar o que aquilo significava.
— Você… você é mesmo tão poderoso assim?
Ele deu um leve aceno de cabeça, sem sinal de vaidade, e voltou ao trabalho, mas não antes de soltar uma frase que se fixou em mim.
— Mas de que serve esse poder se falhei em manter minha própria família?
Permaneci quieta, observando seu perfil. Ele já havia mencionado algo sobre assumir a empresa, mas… como eu poderia entender qualquer coisa sobre negócios? Eu lembrava vagamente de uma briga que ele tivera com a mãe, por minha causa. Tudo começou porque escrevi um artigo revelando a fraude de uma amiga dela — o que resultou em uma onda de investigações e na apreensão dos bens da mulher. Minha sogra, furiosa, veio até mim, me chamando de “pobre ignorante”, como se eu tivesse culpa pelo caráter questionável da amiga.
Eu tentei argumentar, lógico, mas não havia lógica que a fizesse enxergar razão. Ela seguiu gritando até perder a voz.
— E a sua irmã? Ela não vai herdar nada? — Estava genuinamente curiosa, mesmo sabendo que o sarcasmo podia sair antes do interesse real.
Ele deu de ombros, olhando para mim como quem explica o óbvio.
— Já deixei a ela algumas propriedades, o suficiente para manter a fachada que ela gosta de exibir. Nada que a torne um problema.
— E eu? Apenas se divorcie de mim, e me dê uma ou duas propriedades também para me calar, que tal? — sugeri descaradamente.
Alexander arqueou as sobrancelhas, e, para a minha surpresa, ele não pareceu ofendido. Ao contrário, havia um sorrisinho no canto de sua boca quando respondeu:
— Por que eu daria só um peixe a quem já é dona do oceano?
Eu ri, achando o máximo aquele senso de grandeza. E, sim, por algum motivo bizarro, aquilo me desconcertou um pouco. Mesmo sem saber o que estava por vir, a sensação de ser algo mais do que ele deixava transparecer me dominava.
O poder dele era algo que eu nunca entenderia completamente. Ele sempre me surpreendia, como na vez em que mencionei que queria reencontrar minha mãe, ausente há anos. Alexander ouviu e, em uma semana, não só a encontrou, como cuidou para que ela fosse trazida ao país. Organizou a viagem, preparou a papelada… e só me informou da reunião na véspera, claro.
E lá estava eu, nervosa, me preparando para o encontro. Arrastei Alexander comigo até o shopping — talvez ele pudesse ajudar a escolher a roupa ideal para a ocasião, já que tinha um gosto impecável para essas coisas. Ah, mas nem pensei no quão popular ele era. Com os óculos escuros, ele conseguiu passar despercebido para alguns, mas era impossível ignorar aquele porte, a postura quase militar, os traços perfeitos e a presença avassaladora. Parecia um ímã ambulante, e eu já estava arrependida de tê-lo levado ali antes mesmo de chegarmos à loja.
Alexander tinha esse poder sobre as pessoas e sobre mim. E, ainda que ele não se importasse em demonstrar seu afeto de modo convencional, parecia disposto a fazer de tudo para estar ao meu lado — algo que, francamente, eu estava começando a perceber… mesmo que demorasse um pouco mais para admitir.

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