Abri o envelope hesitante, o coração acelerando em um misto de expectativa e medo. A primeira coisa que capturei foi sua letra horrível, escorrendo como tinta de um caneta falhando. O papel continha poucas palavras, mas suficientes para gelar meu sangue:
— Peça à recepcionista para lhe dar o contato da minha família.
Abaixo, um número de telefone, como se fosse uma sentença de morte. Num impulso, a vontade de discar e perguntar como ele estava tomou conta de mim. Mas seria irracional, certo? Afinal, como um dentista te receberia depois de arruinar a vida dele? Mas não podia simplesmente ignorar a situação, ao menos teria que tentar, um consolo egoísta meu, talvez?
Quando finalmente liguei para aquele número, ainda parada ao lado da recepcionista, a voz forte e familiar de Jamil ressoou do outro lado.
— Doutor Jamil? Aqui é Charlotte.
Um silêncio pesado se instalou, e então ele respondeu, quase como se estivesse se preparando para a bomba que iria soltar.
— Sra. Speredo, como posso ajudá-la?
Meu coração despedaçou ao ouvir meu sobrenome pronunciado por ele. Porque eu nunca mencionei que meu sobrenome era uma sombra de um casamento sem amor. Alexander deve ter contado a ele após nosso último encontro. A verdade me atingiu como um soco no estômago, e eu não sabia como reagir.
— Você está bem, Dr. Jamil? — perguntei, a voz tremendo como um filamento de luz em uma tempestade.
— Estou…
O silêncio que se seguiu era pesado, como se ambos soubéssemos que havia muito mais a dizer, mas as palavras eram espinhos que não podíamos arriscar tocar. Ele finalmente quebrou o gelo, e suas palavras cortaram ainda mais fundo.
— Foi seu marido quem me pediu para deixar uma mensagem a você com meu número. Ele disse que passei dos limites com aquele telefonema e nosso encontro no café. Nos últimos dias, desejei que você nunca recebesse esse envelope, pois não tenho mais coragem para falar com você. Peço desculpas por ser inconveniente, Sra. Speredo.
Cada palavra dele era um punhal que me atingia, não porque eu nutria sentimentos românticos por Jamil, mas porque sua necessidade de se afastar de mim era um reflexo do controle cruel de Alexander. Ele afastou todos que se aproximaram de mim: amigos, família e até mesmo os vizinhos, que pareciam me evitar como se eu fosse uma praga. Fui condenada a uma solidão fria e sufocante por aquele sem coração.
Odiava Alexander com uma intensidade que queimava dentro de mim, um fogo que se transformava em cinzas só de lembrar que ele não apenas havia forçado Jamil a se afastar, mas fez o homem perder o emprego, só para provar o quão poderoso e controle tem sobre mim. O homem que deveria cuidar de mim e do meu dente agora estava fugindo de mim por causa dele. Meu orgulho não suportava mais. Com um gesto brusco, cortei a ligação, decidindo preservar o que restava da dignidade de ambos.
Amassei o envelope, jogando-o na lixeira, e saí da clínica sem receber o tratamento. Em vez disso, peguei um ônibus para a rádio, onde passei horas tentando pensar em um tema alegre para o programa. Mas, ironicamente, escolhi falar sobre o maior arrependimento da vida.
Respirei fundo ao entrar no ar e, em um momento de sinceridade crua, disse aos ouvintes:

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