Capítulo 15
A enfermeira saiu do consultório, mas antes, parou na porta e olhou de um jeito diferente para o médico. Ele percebeu, inclinando levemente a cabeça.
- Jéssica. Tudo bem?
- Sim, doutor. Talvez um dia fique melhor ainda... - disse com um sorriso doce, quase carinhoso, antes de sair praticamente saltitante pelo corredor.
O médico pegou a caneta e começou a apertar o botão repetidas vezes, tentando ignorar a sensação incômoda, e boa, que aquele olhar havia deixado. Não estava em um relacionamento, não tinha ninguém e, se fosse pensar logicamente... ela seria perfeita. Educada, divertida, dedicada e, sim, muito jovem.
- Não. Isso não daria certo. Tenho quarenta... e ela vinte. Melhor não - murmurou, como se estivesse tentando convencer mais o próprio corpo do que a mente.
Respirou fundo, olhou para a tela e chamou o próximo paciente, tentando afastar, miseravelmente, qualquer pensamento sobre a enfermeira que agora era impossível tirar da cabeça.
- Doutor, eu não paro de tossir. E sinto falta de ar - reclamou o homem, sentando-se com a postura cansada.
Ele pegou o estetoscópio e de forma profissional, tentou mergulhar no trabalho.
- Vamos fazer um raio-x para descartar pneumonia. Pode ser um quadro de bronquite.
Preencheu a guia, entregou ao paciente, e quando a porta fechou... silêncio. Nenhum outro nome na lista. Nenhuma ficha para preencher. Nada que ocupasse sua mente.
Suspirou, frustrado.
- Justo hoje o movimento tinha que ser baixo...
Girou a cadeira, passando a mão pelos cabelos, tentando raciocinar. Era só uma atração boba. Uma curiosidade. Um instante. Mas a lembrança do sorriso dela, do jeito que o chamou de "doutor" com um olhar que dizia outra coisa.
- Vai ser difícil esquecer. Droga.
***
Eles chegaram por volta das 19hs na fazenda, quando o céu já estava escurecendo. Era justamente o horário do jantar.
Zacky entrou na área gourmet com Dolores nos braços. A acomodou com cuidado em uma cadeira de madeira rústica, depois elevou o pé machucado sobre um banquinho acolchoado.
Pedro, que estava retirando uma travessa de carne do forno, ergueu as sobrancelhas com um sorriso evidente.
— Finalmente, hein? — comentou, meio para si.
Billy ficou boquiaberto, com a colher parada no ar, cheia de comida enquanto observava. Maurício, que picava legumes, apenas arregalou os olhos como quem assistia a uma novela histórica de romance.
Nyra, grande, imponente, silenciosa, aproximou-se devagar. Ela sempre assustava os visitantes, mas agora… Dolores sentiu apenas um leve temor assim que a viu.
Nyra parou diante dela, cheirou com cuidado, focada no pé enfaixado. Depois, com um gesto lento, passou a língua áspera pelo dedão e se afastou para se deitar perto do fogão a lenha.
— Ela gosta de você… e está preocupada com seu pé — disse Zacky, orgulhoso, observando a serval que raramente demonstrava afeto por alguém.
Pedro riu baixinho.
— Se Nyra aprovou, então é sério.
Maurício assentiu, teatral.
— Verdade. Ela nunca lambe ninguém. Nem eu, e eu que alimento esse animal todos os dias.
Nyra levantou a cabeça apenas para encará-lo com um olhar de superioridade, sem gostar do comentário, já que o tom de voz dele não era dos melhores em seus ouvidos e todos riram.
Zacky então se inclinou, verificando se o pé de Dolores estava bem apoiado.
— Você está com dor?
— Não, passou… — ela respondeu, sentindo todos os olhares nela com curiosidade.
— Se precisar é só chamar. Não vai se esforçar, nem levantar sozinha.
Pedro colocou as travessas fumegantes na mesa: costelinha assada, batatas douradas, feijão fresco e pão caseiro.
— Senta aí, cowboy, antes que esfrie. A moça também precisa comer.
Zacky puxou a cadeira ao lado dela, mas não se sentou antes de lhe encher o prato. Carne, purê, legumes. Depois serviu água com limão e gelo.
Billy deu uma risadinha, inclinando-se para Maurício.
— Nunca pensei ver o patrão servindo um prato pra alguém.
Maurício completou:
— Nem eu. E olha que trabalho aqui desde os quatorze anos.

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