Capítulo 20
Dolores sentou-se à mesa, ainda sentia um leve desconforto no pé, mas estava feliz por conseguir caminhar quase normalmente. Pedro colocou diante dela um prato generoso: ovos mexidos cremosos, pão douradinho na chapa e um copo de suco de laranja fresco, geladinho.
- Pode comer tranquila - disse ele, orgulhoso.
Dolores sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
- Parece ótimo. Obrigada, Pedro.
Ela provou os ovos.
- Hum... está uma delícia - elogiou, sincera.
Nyra estava deitada, com o focinho apoiado na perna de Dolores. Ela passou o pé bom no dorso da serval, fazendo carinho.
Pedro colocou uma caneca fumegante de café diante dela.
- Forte, do jeito que eu aprendi com meu pai. Isso aí acorda até defunto.
Dolores tomou um gole. O sabor encorpado e quente desceu pela garganta, aquecendo o peito.
- Perfeito. Acho que estou começando a gostar daqui - confessou.
Pedro cruzou os braços, satisfeito.
- Que bom ouvir isso.
Desde que chegou, está sentindo uma pontinha de paz.
Enquanto mordia o pão, seu olhar se perdeu por alguns segundos.
Pedro percebeu a mudança em sua expressão.
- Ei... tudo certo?
- Tudo sim. Só... pensando na vida.
- Pensar de barriga cheia sempre é melhor.
Dolores concordou com a cabeça e voltou a comer, mas sua mente já não estava mais na mesa. Pensou no assistente André, certamente ele estaria arrancando os cabelos, mesmo depois de tê-la ouvido no dia anterior dizendo que estava bem. Bem. A palavra parecia tão distante da realidade.
A vida dela tinha virado de cabeça para baixo em questão de horas. Um dia estava em seu apartamento organizado, planejando reuniões, assinando documentos... e no outro estava dormindo na cama de um homem que parecia ter saído de um sonho proibido. Literalmente, porque ela não lembrava exatamente como foi parar ali.
Isso é bom ou não? perguntou-se mentalmente, mordendo o pão.
Bom... a parte de estar dormindo com o homem mais gostoso que já viu na vida era, sim, um sonho.
Um sonho perfeito, sem dúvidas, completou para si mesma, lutando contra o sorriso que teimava em surgir.
Ela riu baixinho e tomou outro gole do café, tentando voltar a realidade.
***
Enquanto isso...
Cristina caminhava pelo corredor levando uma pilha de toalhas limpas, rumo ao quarto dos fundos. Mas, ao passar pela porta do patrão, notou que ela estava apenas encostada. Arqueou a sobrancelha.
Olhou para os dois lados, certificando-se de que a serval não estava por perto.
- Ótimo... - murmurou.
Empurrou a porta devagar e entrou.
A cama estava desfeita e algumas peças de roupas espalhadas pela poltrona. Cristina torceu os lábios numa careta de desprezo.
- Mulherzinha relaxada! - resmungou, chutando de leve uma camiseta caída. - Duvido que o Zacky queira ficar muito tempo com esse tipinho preguiçoso de mulher.
Ela observou cada detalhe com desdém e uma pontada de inveja que queimava por dentro de seu ser.
- Aposto que nem sabe arrumar uma cama. E ainda se acha a última bolacha do pacote. Ah, mas comigo aqui... eu mostro quem realmente merece estar nessa casa.
Cristina passou a mão nos lençóis bagunçados e suspirou. No fundo, a sensação de que estava perdendo espaço, a deixava louca.
Ao fechar a porta, murmurou:
- Aproveita, querida. Porque isso não vai durar muito.
***
Dolores andava pelo terreno com o celular erguido, tentando capturar uma barrinha de sinal que surgia e sumia como se estivesse brincando com ela. Cada passo fazia o pé protestar, um latejar insistente que subia pela perna. Estranho... tinha achado que estava melhor. Ou talvez, tenha sido otimista demais, pensou.


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