Capítulo 26
O silêncio na descida da montanha era denso. Dolores ainda sentia o calor de Zacky na pele, o cheiro dele misturado ao seu, mas era como se uma parede de vidro invisível começasse a se erguer entre eles. A realidade, com suas demandas e personagens, os aguardavam na vida real.
Quando a casa apareceu logo à frente, uma figura desmontando de uma moto chamou atenção. Era um homem alto, magro, vestido com uma camisa social clara e calça de linho, que parecia completamente fora de lugar na estrada de terra. Ao tirar o capacete, apareceu um rosto conhecido.
Dolores abriu a boca.
- André? O que faz aqui?
A semblante de Zacky endurecer.
André virou-se, com um sorriso pronto no rosto, seus olhos ágeis percorreram rapidamente os dois. A camisa de Dolores, um pouco desalinhada, uns botões faltando, o cabelo de Zacky revolto, a energia íntima que os envolviam.
- Olá para você também, chefa. Achei que deveria vir para dirigir seu carro já que está com o pé machucado - disse ele, com uma leve ênfase no "pé machucado", como se estivesse lembrando a ela de sua vulnerabilidade. Seu olhar então desviou para Zacky, apreciando a estatura e a presença imponente do vaqueiro com admiração. - Bom dia, senhor Carter.
Zacky não retribuiu o cumprimento imediatamente. Ele permaneceu onde estava, seus olhos cinzas frios como pedra lavrada, examinando André de cima a baixo. Os braços cruzados sobre o peito amplo não eram um gesto relaxado e sim, uma barreira.
- Bom dia - resmungou por fim.
Dolores sentiu um nó se formar no estômago. A magia da montanha desintegrou-se completamente.
André percebeu a tensão e limpou a garganta.
- O carro está pronto? Posso levá-la para a cidade quando for conveniente. Há alguns documentos que precisam de sua atenção urgente. - Seu olhar voltou para Dolores, esperando a transição imediata de "mulher da montanha" para "chefe executiva".
Ela engoliu seco, sentindo os olhos de Zacky sobre si. O último dia deles tinha acabado mais cedo do que ela imaginava.
- Vamos voltar amanhã - ela disse por fim, com a voz firme, sem conseguir olhar para Zacky.
André pareceu aliviado, soltando um suspiro exagerado.
- Claro, chefa. É até melhor pra mim que descanso um pouco, tinha esquecido como é doloroso ficar tanto tempo em cima de uma moto e ainda em estrada de terra cheia de imperfeições. Quase caí uma dúzia de vezes com o barro. - Seu olhar percorreu a paisagem um pouco lamacenta ao redor da casa principal. - Choveu muito por aqui, né?
- Choveu bastante - respondeu Zacky. Ele não se moveu, continuando a observar André. Ele não fez questão de disfarçar que a presença do homem ali era uma invasão, um erro que ele mesmo já havia tentado corrigir o expulsando da última vez que o tinha visto.
Ela se virou para Zacky, buscando em seus olhos algo além daquele gelo, mas encontrou apenas uma muralha. Aquele homem que a havia possuído com tanta intensidade agora parecia um estranho.
Dolores suspirou e entrou na casa. Ela escutou a porta fechar atrás dela, seguida pelos passos pesados de Zacky no assoalho de madeira.
Sem olhar para trás, ela foi direto para o quarto. Tirou a camisa. Foi então que escutou a voz de Zacky, vindo da porta do quarto.
- Ele é mesmo, só seu assistente?
A pergunta não era apenas uma pergunta. Ela se virou para o encarar.
Zacky estava encostado no batente da porta, com os braços cruzados.
- É o meu assistente, Zacky. Nada mais. Ele veio por causa do carro e do meu pé.
O ciúme dele não era apenas pelo homem na varanda. Era pelo mundo que aquele homem representava.


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Temido Cowboy: Que salvou minha vida