Capítulo 28
Meia hora depois, André foi até o local onde havia alugado a moto e pagou a taxa para que buscassem o veículo na fazenda.
Enquanto ele resolvia isso, Dolores permaneceu no carro, com a cabeça recostada no encosto e os olhos fechados. Não queria que tudo tivesse acabado. Não daquele jeito.
— Por que você não me escutou? — murmurou, mais para si mesma do que para o vazio ao redor. — Teimoso como uma mula…
Uma pontada atravessou seu peito ao pensar nele. Em Zacky. No jeito calado, na força contida, no olhar cinza que parecia enxergar além dela.
— Vou sentir saudades… — continuou, com a voz baixa. — De você, da Nyra… e de todos...
As lembranças vieram: a serval deitada aos pés da cama, Pedro na cozinha, o cheiro de café pela manhã, as risadas, a sensação de pertencimento que nunca tivera em lugar algum.
Dolores respirou fundo, tentando conter a emoção. Aquela fazenda tinha sido mais do que um refúgio. Tinha sido um lugar onde ela se permitiu ser apenas mulher. E agora, tudo o que lhe restava era seguir em frente, levando consigo um pouco do que jamais esqueceria.
André entrou no carro em silêncio. Não fez piada, não comentou nada, nem tentou preencher o vazio com alguma observação sem graça, o que, vindo dele, dizia muito.
Dolores abriu os olhos e fitou o para-brisa, sentindo um peso no peito. Sabia que ele tinha aberto a boca na hora errada. Não por maldade. A emoção tinha falado mais alto que a razão, como tantas outras vezes ao longo dos anos.
Ela conhecia André melhor do que ninguém.
Sabia que, no fundo, ele se sentia responsável. E sabia também que o perdoaria. Sempre perdoava.
Afinal, eram melhores amigos desde a escola. Tinham crescido juntos, dividido segredos, inseguranças, sonhos improváveis e vitórias suadas. André sempre foi curioso demais, entrão demais na vida dela, incapaz de ficar à margem quando achava que algo poderia machucá-la.
Mas nunca a desrespeitou.
E, mais importante, nunca deixou ninguém sair impune se a magoasse.
Dolores suspirou fundo, ligou o carro e saiu.
***
Enquanto isso, na fazenda, Zacky trabalhou o dia inteiro, até o céu escurecer por completo. Não sentiu fome, nem sede. O corpo seguiu no automático, obedecendo à rotina pesada como sempre, mas a mente estava longe, presa em lembranças que insistiam em doer.
À noite, entrou na área gourmet em silêncio. Pegou um copo grande, encheu com a água do poço e bebeu de uma vez.
Lembrou-se de como ela tinha feito careta quando percebeu que ele não usava filtro.
Depois, riu. Quando experimentou, ela não queria outra. Dizia que a água da cidade agora parecia morta, sem gosto, cheia de cloro.
Zacky apoiou o copo na pia e respirou fundo antes de enchê-lo novamente.
— Patrão…
Ele se virou devagar. Pedro estava parado à porta, com o avental amarrado na cintura.
— Ela se foi, senhor? — perguntou, chateado.
Zacky levou o copo à boca outra vez, bebeu um gole longo e só então respondeu:
— Foi.
Pedro assentiu devagar.
— Ela volta?
Zacky ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, balançou a cabeça em negativa, sem encará-lo.
— Não.
Pedro abaixou o olhar. Não disse mais nada. Apenas se afastou em silêncio, deixando o patrão sozinho.
Nyra estranhou a ausência da fêmea do dono.


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