Capítulo 58
Na casa grande, o silêncio da madrugada envolvia tudo.
Zacky dormia profundamente, exausto. O dia tinha sido pesado, trabalhos acumulados desde o tempo em que precisou se ausentar da fazenda, decisões difíceis, responsabilidades que só aumentavam. O corpo finalmente cobrava o preço, e o sono o dominou assim que a cabeça tocou o travesseiro.
Dolores despertou no meio da noite.
Não foi um pesadelo. Foi o som suave da garoa, insistente, batendo no telhado e nas vidraças. Ficou alguns instantes de olhos abertos, escutando. Ao seu lado, Zacky respirava fundo, num ritmo calmo que a tranquilizava.
Ela passou a mão devagar pela barriga, sentindo o bebê se mexer levemente, como se também estivesse acordado, atento ao mundo. Um sorriso sereno surgiu em seus lábios.
A chuva fina continuava lá fora, lavando a terra, levando embora angústias que nem sempre sabiam nomear. Dolores suspirou baixo, virou-se com cuidado e se aninhou mais perto do marido, buscando o calor dele.
Em poucos minutos, embalada pelo som da garoa e pela sensação de paz rara, voltou a dormir.
***
Na manhã seguinte, Dolores entrou de mãos dadas com Zacky na área gourmet. Pedro os cumprimentou com um sorriso habitual, mas logo desviou o olhar ao ver Maurício se aproximando também, de mãos dadas com uma moça jovem.
Pedro piscou, surpreso.
— Bom dia, patrão. Bom dia, senhora Dolores. — Disse Maurício. — Esta é Andréia.
Zacky observou a moça com atenção. Ela parecia ser frágil. E, naquele instante, teve plena convicção: o amigo tinha feito a coisa certa. Talvez a melhor decisão da vida dele.
Dolores sorriu para Andréia com doçura e se aproximou devagar, como quem não quer assustar.
— Seja bem-vinda — disse, estendendo a mão. — Eu sou Dolores.
Andréia hesitou por um segundo, depois apertou a mão dela com cuidado.
— Obrigada… — respondeu em voz baixa. — Por tudo.
Dolores sentiu o peso daquelas duas palavras. Apertou a mão da jovem um pouco mais, transmitindo segurança.
— Aqui você está em casa — afirmou. — Ninguém machuca ninguém neste lugar.
Maurício respirou aliviado ao ouvir aquilo. Zacky se aproximou e colocou a mão em seu ombro, num gesto silencioso de aprovação.
— Fez bem — disse apenas.
Maurício assentiu.
— Ela vai ficar comigo — explicou.
Pedro pigarreou, tentando disfarçar a emoção que subiu à garganta.
— Vou colocar mais um prato na mesa — disse, se afastando. — Ou melhor, dois.
Andréia sorriu pela primeira vez sem medo. Um sorriso pequeno, enquanto colocava a mão na barriga e Dolores viu.
— Quantos meses? — perguntou com delicadeza.
— Ainda não sei, mas tem pouco tempo. Só tinha percebido o atraso e fiz um teste de farmácia.
— Então vamos cuidar bem de vocês dois — respondeu Dolores. — Aqui tem médico, tem comida de verdade e tem gente que se importa.
Andréia sentiu algo que não ousava sentir há tempos:
Pertencimento.
Maurício puxou a cadeira para ela se sentar.
Após o café da manhã, eles se despediram das mulheres e se preparavam para sair rumo ao trabalho quando Billy surgiu correndo, visivelmente aflito.
— PATRÃO! PATRÃO!
Zacky se virou imediatamente.
— O que foi, Billy?
— É o Pérola Negra… ele foi picado por uma cobra!
O semblante de Zacky ficou sério num instante.
— Agora? — ordenou. — Onde ele está?
— No pasto do fundo, perto do córrego — respondeu Billy, ofegante. — Ele caiu de repente.
Dolores sentiu o coração apertar. Pérola Negra não era apenas um cavalo; era o xodó de Zacky, forte, leal, praticamente uma extensão dele.
— Eu vou com você — disse ela, se levantando.

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