Capítulo 73
Thomas Carter agora tinha trinta e cinco anos. Cuidava da fazenda no lugar do pai, que já não trabalhava mais por causa da idade. A mãe e o pai viajavam com frequência.
Muitas vezes, Thomas passava dias inteiros sozinho na fazenda. Talvez por isso, ao ver um serval preso na casa de um homem sem qualquer experiência para cuidar daquele tipo de animal, sentiu um aperto no peito. Sem pensar duas vezes, ofereceu uma quantia generosa de dinheiro para tirá-lo dali.
Thomas sabia que aquele animal não deveria estar ali. O serval andava de um lado para o outro no cercado improvisado, inquieto. O homem falava animado sobre a "exclusividade" do bicho, mas bastou Thomas observar por alguns minutos para entender: não havia manejo, nem respeito, apenas vaidade.
— Ele não é um gato doméstico — disse Thomas, com a voz firme. — Vai acabar machucando alguém... ou sendo machucado.
O homem deu de ombros, rindo, até Thomas mencionar o valor que estava disposto a pagar. Um valor alto demais para ser ignorado.
Horas depois, o serval estava na carroceria da caminhonete, dentro de uma caixa apropriada, enquanto Thomas dirigia pela estrada de terra da fazenda.
Quando chegou em casa, levou o animal para um espaço amplo, cercado por árvores perto da casa. O serval observava tudo com cautela, o corpo tenso, pronto para fugir ou atacar. Thomas manteve distância, ajoelhou-se e falou baixo, como fazia vinte anos antes com Ayra.
— Eu sei... você não confia em humanos. Eu também não confio muito.
Naquela noite, Thomas não dormiu. Ficou sentado na varanda, ouvindo os sons da fazenda e, vez ou outra, o rosnado baixo do serval se misturando ao vento.
Na manhã seguinte, Thomas trabalhava sem camisa, o corpo suado brilhando sob o sol, dourando a pele enquanto ele lidava com as tarefas da fazenda. À noite, uma vez por semana, ia à cidade. Havia uma mulher com quem se encontrava regularmente; ficavam juntos todas as quartas-feiras, sem envolvimento além do desejo. Até o dia em que tudo mudou.
— Thom...
— Por favor, não me chame assim. Meu nome é Thomas.
— Tudo bem. Mas me diz uma coisa... quando você vai me assumir?
Ele interrompeu o movimento de calçar as botas e olhou para ela.
— Assumir?
— Sim. Podemos ficar noivos, casar e...
— Não. — A voz dele foi firme e definitiva. — Nós só ficamos juntos. Nada além disso. E, sendo sincero, é melhor encerrarmos por aqui.
Ele terminou com a jovem e, naquela mesma noite, foi ao bar mais próximo e bebeu até perder a conta. Não queria pensar em nada.
Vinte anos se passaram, e ainda assim sua mente nunca encontrou descanso desde aquele dia terrível. Nunca descobriram o que realmente havia acontecido. A lembrança voltava como uma ferida aberta quase todas as noites.
Seus olhos marejaram. A raiva de si mesmo o invadiu, e ele pediu mais uma dose. Aquela noite em especial estava cansado de sofrer. Sua mente não tinha descanso.
No final do balcão, duas moças riam despreocupadas. Thomas baixou o olhar, fingindo não notar quando uma delas se levantou e se aproximou. Tentou ignorar, mas a voz doce atravessou seus sentidos.
— Olá... posso me sentar com você, grandão?
Era assim que cresceu ouvindo a mãe chamar o pai. Grandão. E ele era cinco centímetros mais alto do que o pai.
— Pode — respondeu simplesmente.
O cheiro dela invadiu suas narinas e o fez se arrepiar. Thomas sorriu de si mesmo. Tinha acabado de sair da cama da ex e, ainda assim, seu corpo reagia, ao tom suave da voz e ao perfume envolvente da moça ao seu lado.
Levou o copo aos lábios. Ergueu o olhar. E o mundo pareceu sair do eixo.
O rosto da moça à sua frente o atingiu como um soco no estômago. O sorriso suave. O formato dos olhos. A curva delicada do nariz. Até o jeito de inclinar levemente a cabeça, lhe era familiar.
O copo escorregou um pouco entre seus dedos e o coração acelerou, de uma forma quase dolorosa.
— Não... — murmurou, mais para si mesmo.
Ou tinha enlouquecido de vez...
ou aquela mulher era absurdamente parecida com Penélope.
O sangue gelou nas veias, deveria ter enlouquecido de vez. O bar ao redor continuava vivo: risadas, música baixa, copos tilintando...
Mas para Thomas tudo ficou distante, quase não escutava nada a seu redor.
Ela franziu a testa, confusa com a reação dele.
— Você está bem?
Ele a encarou por longos segundos, com os olhos cinzentos escuros. Vinte anos não tinham sido suficientes para apagar aquele rosto da memória.
Engoliu seco.
— Qual é o seu nome? — perguntou, com a voz rouca, quase falhando.
Ela sustentou o olhar dele, surpresa com a intensidade do olhar. Pelo contrário, inclinou-se um pouco para a frente, apoiando o antebraço no balcão.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Temido Cowboy: Que salvou minha vida