Capítulo 83
Alguns dias depois, Isaura passou em frente à casa que todos passaram a chamar de mal-assombrada. Desde que seu irmão e a cunhada haviam falecido ali dentro, ninguém mais se aproximou do lugar. Até descobrirem que o sobrinho tinha voltado.
O cadeado da porteira estava aberto. Apesar do coração dela ter acelerado, entrou. O mato alto roçava suas pernas, e o medo de pisar em alguma cobra a fez andar com cuidado até a porta da casa.
Henrique estava saindo quando a viu.
Isaura parou a poucos metros dele e o observou com atenção. O rosto bonito, agora mais duro, não havia mudado tanto quanto ela esperava.
— Então você voltou… — murmurou.
Henrique franziu a testa.
— Quem é você? O que quer?
Ela ergueu o queixo, orgulhosa.
— Sou sua tia. Irmã do seu falecido pai.
Ele a encarou por alguns segundos e então deu um sorriso irônico.
— Envelheceu bastante, titia. — Pegou o capacete. — Com licença, tenho que sair.
Isaura balançou a cabeça devagar. Ele sempre foi mal-educado com ela.
— Você não voltou para continuar o que não terminou… voltou? — perguntou, afiada.
Henrique parou no mesmo instante.
Virou-se lentamente, o sarcasmo sumindo do rosto, substituído por uma tensão densa.
— Do que está falando?
— Eu sei o que você fez — disse ela, firme. — Nunca contei por amor ao meu irmão. E também porque você foi despachado daqui. Mas agora que voltou… é melhor andar na linha. Ou eu conto tudo.
Ele se aproximou um passo, os olhos castanhos escurecidos.
— Você não seria capaz — murmurou, baixo, em tom de ameaça.
Isaura não recuou.
— Só tente, garoto.
Ela passou por ele sem olhar para trás e deixou a propriedade.
Henrique ficou observando a tia se afastar, os dedos se fechando até os nós ficarem brancos.
— Nem pense em entrar no meu caminho, velha coroca — murmurou, com ódio contido.
Colocou o capacete e saiu com a moto, acelerando forte pela estrada de terra.
Minutos depois, estacionou na praça da cidade. Assim que tirou o capacete, o semblante fechado aos poucos se transformou num sorriso lento e interessado.
— Meu dia não está de todo ruim… — falou baixo, enquanto observava Juliana entrar na padaria.
Henrique observou Juliana entrar na padaria. Ele sorriu de lado. Colocou o capacete no braço e entrou atrás dela, empurrando a porta de vidro com calma. O sino tilintou, anunciando sua presença.
Juliana estava no balcão, conversando com Brígida, escolhendo algo para levar. Ria baixo, distraída, sem perceber que estava sendo observada.
Henrique se aproximou do balcão, apoiando o cotovelo como quem não queria nada.
— Boa tarde — disse, com a voz grave e agradável demais.
Juliana virou o rosto automaticamente. Os olhos deles se encontraram.
Ela sentiu um arrepio estranho... um certo incômodo.
— Boa tarde — respondeu, educada.
Brígida, sempre atenta, olhou de um para o outro.
— Vai querer o que, Henrique?
Ele sorriu para a balconista.
— O de sempre. — Depois voltou-se para Juliana. — Você não é daqui, né?
Juliana franziu levemente a testa.
— Sou… mais ou menos. Voltei faz pouco tempo.
— Imaginei. — Ele inclinou a cabeça, estudando-a sem disfarçar. — Cidade pequena não costuma esconder gente bonita assim.
Ela sorriu sem graça.

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