Capítulo 84
Isaura fechou a porta da casa com força. Estava sozinha. Não se sentia segura com o sobrinho na cidade.
O coração ainda batia acelerado depois do encontro com ele. O olhar dele era frio, calculista, não era o de um homem que havia mudado. Era o mesmo menino cruel de anos atrás, agora escondido atrás de um corpo adulto.
— Eu devia ter falado antes… — murmurou, passando a mão trêmula pelo peito.
Foi até a mesa antiga da sala, puxou a cadeira e sentou devagar. Abriu a gaveta, tirou uma folha de papel amarelada e uma caneta azul. As mãos tremiam. Respirou fundo e começou a escrever.
Cada palavra parecia arrancada com força de sua mente. Escreveu nomes. Datas. Tudo o que sabia. O que Henrique fez naquela época e como foi protegido, enviado para fora, varrido para longe como se o pecado pudesse desaparecer com a distância.
— Agora não… agora é tarde demais pra ter medo — sussurrou.
Quando terminou, releu tudo duas vezes. Dobrou a carta com cuidado excessivo, como se ali estivesse sua própria vida.
Levantou-se com dificuldade, caminhou até a porta, abriu e olhou para a chácara vizinha.
Com esforço, atravessou o quintal e bateu palmas.
— Marta… — chamou, a voz falhando. — Marta, sou eu.
A porta foi aberta quase imediatamente. A vizinha franziu a testa ao ver o estado de Isaura.
— Isaura? O que aconteceu, mulher? Você está branca!
Ela entrou sem pedir licença. As pernas falharam e precisou se apoiar na mesa da cozinha.
— Preciso… preciso que você faça uma coisa por mim.
Marta puxou uma cadeira.
— Senta. Você está me assustando.
Isaura não sentou. Tirou a carta do bolso do vestido, estendeu as mãos e colocou o papel dobrado entre as mãos da vizinha. Em seguida, fechou os dedos de Marta sobre a carta, apertando com força surpreendente.
Os olhos de Isaura estavam marejados:
— Se acontecer alguma coisa comigo… — a voz falhou, ela engoliu seco — leve essa carta até a polícia. Prometa! Por favor.
Marta sentiu um arrepio na pele.
— Do que você está falando? Que coisa contigo?
Isaura apertou ainda mais as mãos dela.
— Prometa.
Silêncio.
— Eu prometo — respondeu Marta, assustada. — Mas me diga, Isaura… quem te ameaçou?
Isaura soltou as mãos devagar, deu um passo para trás.
— Meu sobrinho voltou.
O rosto de Marta empalideceu.
— Henrique…?
Isaura assentiu.
— E ele é mais perigoso agora do que nunca. Eu senti isso.
Sem dizer mais nada, virou-se e saiu, deixando Marta parada na cozinha, com a carta nas mãos e um pressentimento terrível apertando o peito.
Do lado de fora, o vento soprou forte, fazendo as árvores rangerem.
Isaura caminhou de volta para casa sentindo, que finalmente havia feito a coisa certa. Mesmo que fosse a última.
— Eu o ameacei e ele não vai esquecer.
***
No dia seguinte, o céu estava com um tom perfeito de azul, para aquele dia tão especial.
A pequena igreja da cidade estava cheia de vida. Flores do campo e laços vermelhos enfeitavam os bancos.
Juliana entrou de braços dados com o pai, o vestido claro caindo suavemente sobre suas curvas. O sorriso dela tremia de emoção.
Thomas a esperava no altar, de terno e chapéu na mão. Quando a viu, os olhos cinzentos encheram de lágrimas que ele não tentou esconder.
— É ela… — murmurou para si mesmo. — Sempre foi.

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