Henrique andava de um lado para outro na residência de Viviane. Ele havia presenciado toda a cena daquela noite à distância.
Quando viu a faca atingir Viviane, seu primeiro impulso foi correr até ela, mas se conteve ao ver Eduardo a socorrendo, discretamente ele foi até o hospital e permaneceu lá, quase que escondido até ter certeza que Viviane estava fora de perigo.
A vontade dele era de ir ficar com ela, mas Eduardo estava com ela e ele não teria como explicar que a conhecia e para todos os efeitos eles eram estranhos.
Então algo lhe passou pela cabeça, aquele atentado poderia servir para aproximar Eduardo e Viviane outra vez, no passado ela o abandonou quando ele estava preso a uma cama de hospital em coma, sem saber quando despertaria e se voltaria a andar normalmente.
Agora de alguma forma aquilo poderia servir para redimi-la diante dos olhos de Eduardo. Sem pensar em si mesma, ela se colocou diante de uma faca destinada a ele.
Se alguém lhe contasse aquilo meses atrás, jamais acreditaria, mas os fatos estavam ali. Eduardo devia a vida a Viviane.
E dívidas daquela natureza eram difíceis de serem ignoradas. Talvez aquela noite não tenha sido apenas uma tragédia, talvez tenha sido uma oportunidade de apagar os erros do passado.
*****
Eduardo permaneceu ao lado de Viviane durante toda a manhã.
Ela ainda passava a maior parte do tempo dormindo por causa dos sedativos, e ele não tinha contato de nenhum familiar ou amigo próximo, Por isso, sentia-se na obrigação de permanecer ali.
Logo cedo, Murilo providenciou seu notebook. Enquanto Viviane descansava, Eduardo tentava manter a rotina de trabalho, respondendo e-mails e acompanhando os assuntos mais urgentes da empresa.
O celular tocou e ao ver o nome de Murilo na tela, atendeu imediatamente.
— Alguma novidade?
— Ainda não, senhor. — respondeu Murilo. — A polícia está investigando, mas o agressor foi cuidadoso. O rosto estava completamente coberto e a motocicleta utilizada na fuga não possuía placa nem qualquer identificação visível.
A expressão de Eduardo se tornou mais dura.
— Continuem pressionando.
— Sim, senhor.
— Quero acesso a todas as imagens das câmeras da região. Trânsito, comércios, condomínios, tudo. Em algum momento ele teve que aparecer.
— Já estamos levantando esse material.
— Não basta levantar. Quero resultados.
— Entendido.
A ligação foi encerrada. Eduardo apoiou o celular sobre a mesa ao lado da cama e passou a mão pelo rosto.
O ataque parecia planejado, profissional demais para ser um simples assalto ou uma ação impulsiva.
Enquanto isso, do lado de fora do hospital, outra batalha havia sido travada.
Durante a madrugada, vídeos gravados por convidados começaram a circular nas redes sociais. Alguns mostravam o momento de pânico após o ataque; outros registravam apenas a movimentação na entrada do hotel.
O assunto chegou a ganhar repercussão nas primeiras horas da manhã, mas não por muito tempo. A equipe jurídica e de comunicação do Grupo Monteiro agiu rapidamente.
Os vídeos foram removidos, as publicações desapareceram e os principais veículos de imprensa foram silenciados pela influência de Eduardo e o assunto desapareceu quase tão rápido quanto surgiu.
Ao meio-dia, o assunto já havia praticamente sumido da internet. Para o público, o episódio não passara de um incidente confuso ocorrido na saída de um evento empresarial.
Mas Eduardo sabia que a realidade era bem diferente, alguém havia tentado matá-lo.
Eduardo era um dos empresários mais influentes do país. Nos negócios, tinha a reputação de ser frio, implacável e estrategista. Concorrentes derrotados, fusões agressivas e negociações duríssimas haviam construído sua fortuna e também sua fama, muitos o chamavam de Iceberg.
Poucos ousavam enfrentá-lo.
Mas, enquanto observava Viviane adormecida na cama do hospital, uma pergunta insistia em retornar à sua mente.

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