— Sua mãe entendia isso muito bem. — continuou o padre. — Clara sofreu muito. Mais do que a maioria das pessoas jamais imaginou. E, ainda assim, nunca deixou que o sofrimento a abalasse.
Um sorriso triste surgiu nos lábios de Helena.
— Eu queria ser forte como ela.
— Você já é.
— Não sou.
— É sim. Só está cansada.
As palavras atingiram seu coração de uma forma inesperada. Era exatamente isso que sentia, estava cansada de lutar e fingir que estava bem.
Padre Ângelo segurou suas mãos.
— Não tenha medo de chorar. Não tenha medo de sentir dor. E não tenha medo de dizer a Deus que está magoada. Ele já conhece seu coração.
As lágrimas voltaram a escorrer. Mas, dessa vez, eram diferentes, menos amargas.
— E se eu não conseguir?
— Então dê apenas o próximo passo. Não pense no amanhã. Nem no mês que vem. Apenas no próximo passo. Deus nunca pede para carregar tudo sozinhos.
Helena fechou os olhos e sentiu algo que acreditava ter perdido: Esperança.
Quando deixou a igreja algum tempo depois, o céu já estava tingido pelos tons dourados do fim da tarde. Ela parou nos degraus da entrada e observou a luz do sol atravessando as nuvens.
Instintivamente levou a mão ao colar que pertenceu à sua mãe e as palavras de Clara voltaram à sua memória.
"Não perca sua fé. Você não ficará sozinha."
Uma brisa suave tocou seu rosto. E, pela primeira vez desde a morte da mãe, Helena não sentiu apenas saudade. Sentiu também gratidão.
Talvez os problemas continuassem esperando por ela, talvez Eduardo continuasse distante. Talvez a dor não desaparecesse tão cedo.
Mas, enquanto observava aquele pôr do sol, Helena compreendeu algo que havia esquecido. A noite sempre chega, mas o amanhecer também e ela acreditou que o seu ainda viria.
*****
Já era tarde quando Eduardo deixou o escritório e seguiu para o apartamento de Viviane.
Assim que entrou, encontrou o apartamento na penumbra, a mesa estava posta com cuidado, iluminada apenas pela luz suave das velas. Uma música suave preenchia o ambiente.
A intenção era clara, um jantar romântico.
Desde que Viviane recebeu alta do hospital, aquela havia se tornado uma rotina. Ao fim do expediente, Eduardo passava para vê-la, certificava-se de que estava bem e jantava com ela. Apesar das constantes tentativas de prolongar sua permanência, ele nunca ficava. Mas não ia para casa e sim para seu apartamento.
Viviane ainda se recuperava do ferimento, e Eduardo acreditava ser seu dever estar presente. Nada além disso. Pouco depois, ela surgiu na sala.
Vestia um vestido branco simples e elegante. A maquiagem era discreta, suficiente apenas para destacar sua beleza natural. Nos últimos dias, Viviane abandonou os trajes chamativos e a sofisticação exagerada que costumavam acompanhá-la.
A mulher que agora se apresentava diante dele parecia mais suave e delicada, essa versão de Viviane, era algo que ele não estava habituado.
Mas naquela noite, Viviane queria muito mais que atenção e conversa leve. Eduardo viu em seus olhos o brilho sedutor e cativante que o havia arrebatado anos atrás, ela se aproximou lentamente, Eduardo sentiu que não deveria estar mais ali, mas a obrigação falava mais alto.

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