Sentado à cabeceira, John Walker tornou-se exatamente a figura temida no mundo corporativo: frio, preciso, implacável. Sua voz nunca se elevava, mas cada palavra era calculada com rigor. Ele questionou projeções, apontou falhas de logística, contestou percentuais, exigiu garantias adicionais e desmontou, uma a uma, as partes da proposta que considerava frágeis.
Murilo acompanhava tudo em silêncio, impressionado com a velocidade com que John transitava entre dados, cenários e exigências.
Eduardo, porém, não se intimidava.
Havia passado meses se preparando para aquele momento. Respondia com segurança, ajustava números em tempo real, sustentava o olhar duro de John e não recuava diante das provocações estratégicas dele. Os dois pareciam medir forças em um tabuleiro invisível, onde cada frase equivalia a uma peça deslocada com precisão.
Em determinado momento, John fez uma observação seca sobre a viabilidade de um dos centros de distribuição no projeto europeu.
— Essa margem de segurança está otimista demais. — disse, folheando o documento. — Se eu aceitasse isso como está, estaria assumindo um risco que não considero inteligente.
Antes que Eduardo respondesse, Bruce se inclinou discretamente e deslizou um papel ao lado de John.
— Os dados consolidados de Rotterdam chegaram há quinze minutos, senhor.
John lançou os olhos ao documento por apenas dois segundos, como se bastasse para compreender tudo, e então assentiu.
— Inclua isso no item sete. — ordenou, sem sequer precisar explicar mais.
— Sim, senhor.
Murilo observou a troca com atenção.
Não havia necessidade de longas instruções. Bruce já parecia saber exatamente o que John precisava, quando precisava e de que forma deveria agir. A sintonia entre os dois era evidente, construída sobre confiança, competência e lealdade.
A reunião prosseguiu por mais uma hora naquele ritmo intenso, até que o celular de John vibrou sobre a mesa.
Qualquer outro homem teria ignorado a chamada no meio de uma negociação daquela dimensão. John apenas baixou os olhos para a tela, e algo em sua expressão se suavizou de forma visível.
— Senhores, um instante.
Atendeu ali mesmo, sem se afastar.
— Lizzie.
A mudança em sua voz foi impossível de ignorar. Havia perdido o tom de rigidez e se tornou suave. John ouviu por alguns instantes e então o canto de sua boca se moveu num sorriso leve e seu semblante ficou completamente relaxado..
— Não, eu não esqueci. — disse, com uma paciência baixa e íntima. — Estarei em casa a tempo do jantar… Sim, eu prometi. — Fez uma breve pausa, ouvindo algo do outro lado. — Diga a Anthony que, se começar o filme sem mim, vou considerar isso uma afronta pessoal.
Murilo abaixou os olhos para o tablet, fingindo concentração, mas a surpresa percorreu seus pensamentos.
Bruce, por sua vez, apenas manteve a postura habitual, como se aquela cena fosse absolutamente corriqueira. E talvez fosse.
John encerrou a ligação poucos segundos depois e voltou à mesa.
— Onde estávamos?
A reunião continuou, mas, para Eduardo, alguma coisa já havia mudado.
Ele ainda discutia cláusulas, ainda defendia projeções e mantinha o semblante frio que sempre o definira no mundo dos negócios. Contudo, parte de sua mente permanecia presa ao que acabara de ver.
Não era apenas o telefonema. Era o conjunto.
A filha que o fizera se atrasar. A naturalidade com que mencionava a esposa. A forma como confiava em Bruce, como se ele fosse mais do que um funcionário. O modo como transitava entre a brutalidade dos negócios e uma vida pessoal real, concreta, viva, sem parecer dividido entre uma coisa e outra.

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