No quarto do hotel, Eduardo afrouxou o nó da gravata assim que a porta se fechou atrás dele.
O silêncio do ambiente o envolveu de imediato. Era uma suíte ampla, sofisticada, com janelas de vidro do chão ao teto e uma vista privilegiada da cidade iluminada.
Em qualquer outra noite, ele teria ido direto à mesa de trabalho, aberto o notebook e passado horas revisando relatórios, alinhando os últimos detalhes da reunião decisiva com John Walker. Era o que fazia havia meses, trabalhar até a exaustão, como se manter a mente ocupada fosse suficiente para sufocar todo o resto.
Naquela noite, porém, não foi isso que aconteceu.
Eduardo caminhou até o bar da suíte, serviu-se de uma dose generosa de uísque e foi até a janela. Permaneceu ali, observando a cidade lá embaixo, sem realmente vê-la.
As palavras de Murilo ainda ecoavam em sua cabeça.
“Não me pareceu luxo. Me pareceu prioridade.”
Ele levou o copo aos lábios e bebeu um gole lento, sentindo o líquido descer queimando pela garganta. O pior era que não se tratava apenas de John Walker. Não era inveja, tampouco admiração cega. Era o desconforto de ser obrigado a encarar algo que evitara por tempo demais.
John Walker era um homem temido no mundo dos negócios. Frio, calculista, duro. Ninguém ousaria chamá-lo de fraco. Ainda assim, não havia qualquer hesitação quando o assunto era a esposa ou os filhos. Como se, para ele, não existisse contradição entre ser implacável no trabalho e devotado à família.
Eduardo apertou o maxilar. Com ele, tudo parecia ao contrário.
Era eficiente, respeitado, temido até. Sabia conduzir uma negociação, administrar crises, expandir o grupo e proteger o patrimônio da família. Mas, quando o assunto era Helena… havia apenas um vazio desconfortável.
Lembrou de Elizabeth Walker, da única vez que a viu em um jantar de gala. Ela não chamava a atenção apenas pela beleza serena da esposa de John, mas da aura singular que a cercava, havia algo nela, uma delicadeza firme, quase luminosa, capaz de suavizar a frieza do marido sem jamais ofuscar a força dele. Uma elegância tranquila, um tipo raro de presença que não precisava se impor para ser notada.
Seu olhar desceu, quase involuntariamente, para o celular sobre a mesa de centro.
Fazia meses que não falava com Helena.
A constatação o atravessou com um gosto amargo. Não porque tivesse se esquecido, mas porque se lembrava dela mais do que gostaria de admitir. Fechou os olhos por um breve momento.
Lembrava-se dela com uma nitidez irritante ao abrir os olhos e esvaziou o restante do uísque de uma vez. Virou-se e caminhou até a mesa, pegando o celular.
A tela se acendeu em sua mão. Havia e-mails, mensagens de trabalho, atualizações do grupo empresarial. O polegar deslizou quase por reflexo até a conversa com Helena.
A última mensagem continuava ali, antiga demais.
Uma troca breve, burocrática, sem qualquer traço de intimidade. Algo sobre um compromisso familiar, uma resposta objetiva dele, um “certo” educado da parte dela. Nada mais.
Eduardo ficou alguns segundos encarando a tela. Era ridículo. Bastava digitar uma frase simples.

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