Helena ficou imóvel, o rosto impassível, embora por dentro algo se contraísse, não por emoção, mas pelo desconforto daquela confissão, pelo peso do passado sendo arrastado de volta à superfície justo quando ela já estava fragilizada demais.
— Não diga isso — murmurou, por fim.
— É a verdade.
— Não, Danilo. — A voz dela saiu baixa, mas firme. — Não transforme arrependimento em sentimento. São coisas muito diferentes.
Ele passou a mão pelo maxilar, como se buscasse as palavras certas.
— Talvez eu tenha entendido isso tarde demais. Talvez eu só tenha percebido o que perdi quando já era tarde. Mas eu pensei em você todos esses anos.
Helena o encarou sem vacilar.
— Pensou em mim… ou no que eu me tornei depois?
A pergunta o fez hesitar, e Helena percebeu. Aquilo bastou para fazê-la sorrir sem alegria.
— Viu? — disse ela, inclinando-se um pouco para trás na cadeira. — Você pode até acreditar na sua própria versão da história, Danilo, mas eu não sou mais aquela garota que acreditava em tudo o que você dizia.
— Eu sei que te magoei. Sei que fui covarde. Mas não estou aqui por interesse.
Helena desviou o olhar para a janela por um instante. Lá fora, a noite seguia indiferente, as luzes da cidade se espalhando como se nada tivesse importância.
— Você escolheu ir embora — disse, voltando a encará-lo. — Escolheu me deixar justamente quando a minha vida estava desmoronando. Não foi um acidente, não foi um mal-entendido. Foi uma escolha.
Danilo abaixou a cabeça por um instante, como se recebesse a sentença que já esperava.
— Foi o maior erro da minha vida.
Helena respirou fundo.
Talvez, em outro momento, aquelas palavras tivessem provocado algo nela, raiva, mágoa, desejo de revanche. Danilo já não tinha o poder de feri-la como antes. O problema era que o vazio dentro dela tinha outro nome, outro rosto, e estava a um oceano de distância.
— Eu não sei o que você espera de mim. — disse, com honestidade. — Agora sou uma mulher casada. O que existia entre nós ficou no passado.
Danilo a fitou com intensidade.
— E se eu disser que quero apenas o seu perdão.
Helena ficou em silêncio por um segundo. Então ergueu os olhos para ele, serena, mas firme:
— A mágoa que sentia por você já não existe mais.
A resposta caiu entre os dois como uma porta se fechando.
Danilo desviou o olhar por um breve momento. Helena, no entanto, já não tinha forças para prolongar aquela conversa. Pegou a bolsa sobre a cadeira e se levantou devagar.
— Acho que já ouvi o suficiente por hoje.
Danilo também se levantou de imediato.

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