Helena chegou em casa naquela noite e foi recebida pelo silêncio e pela penumbra das luzes indiretas espalhadas pela mansão.
Subiu as escadas devagar, ao alcançar o andar superior, parou diante da porta do quarto, porém não entrou. Seu olhar desviou, quase involuntariamente, para a grande porta da suíte principal.
Ficou imóvel por alguns segundos. Então caminhou até ela.
Parou diante da porta fechada e a observou em silêncio. Nenhuma luz escapava pela fresta. O quarto permanecia escuro, intocado, como se ainda guardasse a presença de Eduardo mesmo em sua ausência. Helena ergueu a mão devagar e pousou os dedos na maçaneta fria. Seus dedos estavam trêmulos.
Ela nunca havia entrado ali. Não sabia ao certo o tamanho do cômodo, nem como era a decoração, se os tons eram sóbrios como ele, se os móveis seguiam a mesma imponência austera que Eduardo carregava em tudo. Aquele quarto sempre fora um território proibido, um espaço que pertencia apenas a ele e que ela jamais ousou invadir.
Naquela noite, porém, desejou conhecê-lo um pouco mais.
Quis abrir aquela porta, atravessar a distância invisível que sempre existira entre os dois e, por alguns instantes, fingir que também pertencia àquele lugar. Imaginou a cama grande demais, os lençóis com o perfume dele, o travesseiro marcado por noites que nunca compartilharam. Imaginou-se ali, naquele espaço que deveria ser de ambos, mas que nunca fora.
Os dedos apertaram de leve a maçaneta, mas a coragem falhou.
Devagar, Helena retirou a mão, sem desviar os olhos da porta fechada. Se algum dia entrasse ali, queria que fosse porque Eduardo permitiria. Porque ele a queria ao seu lado, como um homem que escolhe, de verdade, a própria esposa. Não entraria naquela suíte numa noite furtiva, como quem se contenta em roubar migalhas de um lugar onde nunca fora permitido entrar.
Engoliu em seco e deu um passo para trás. Depois se virou, caminhando lentamente até o próprio quarto.

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