Helena hesitou por um instante. Ainda havia algumas coisas para organizar, mas nada que não pudesse resolver em poucos minutos.
— Tudo bem — respondeu, por fim.
Do outro lado da linha, Bruno sorriu, satisfeito, embora ela não pudesse ver.
— Ótimo. Daqui a pouco estou aí.
— Certo.
Assim que desligou, Helena pegou o telefone novamente e ligou para Xavier, dispensando-o. Havia combinado que ele a levaria da empresa ao aeroporto, mas, já que seguiria com Bruno, não haveria necessidade. Pediu apenas que deixasse sua mala na recepção e que durante sua ausência, ele ficasse à disposição de Bianca.
Pouco depois do meio-dia, Ana avisou pelo interfone que Bruno já havia chegado. Respirou fundo, endireitou os ombros e afastou o pensamento.
Helena recolheu os últimos documentos, conferiu a bolsa, antes de sair, lançou um último olhar ao escritório, como se certificasse de que tudo estava em ordem, e então seguiu para a recepção.
Bruno a aguardava próximo à entrada principal.
Assim que a viu, abriu um sorriso sereno, daqueles que pareciam surgir com naturalidade sempre que seus olhos pousavam nela. Estava impecável em uma camisa social clara, sem gravata, e em um blazer escuro de corte perfeito, a postura elegante e segura de sempre.
— Pronta? — perguntou, aproximando-se.
— Sim. Espero não ter te feito esperar.
— Por você, eu esperaria mais.
O comentário veio leve, acompanhado de um sorriso quase displicente, como se fosse apenas gentileza. Ainda assim, Helena o olhou por um instante a mais, mas não disse nada, apenas sorriu, depois virou-se para Ana que lhe entregou a mala.
Naquela noite, quando a colocou sobre a cama, ela não pensava em uma simples viagem de trabalho. Pensava em fuga. Em uma possibilidade de deixar para trás mais do que apenas aquela casa. Mas foi um pensamento rápido, ainda não.
Antes que Helena pegasse a mala, Bruno se adiantou e a pegou antes que ela pudesse protestar.
— Eu levo.
Os dois seguiram lado a lado até o carro de luxo estacionado logo à frente da empresa. Bruno abriu o porta-malas e acomodou a bagagem de Helena com cuidado, ao lado da própria mala, enquanto ela aguardava junto à porta do passageiro.
Foi nesse instante que, do outro lado da rua, um homem ergueu discretamente a câmera de uma lente profissional.
Primeiro, registrou Bruno inclinando-se para acomodar a mala dela, num gesto atencioso demais para um simples parceiro de negócios.
Depois, fotografou o momento em que Bruno fechou o porta-malas, contornou o carro e abriu a porta do passageiro para Helena, protegendo com a mão o topo da porta para que ela entrasse sem esbarrar.
Helena agradeceu com um sorriso gentil, sem notar o clique distante. Bruno fechou a porta, deu a volta e assumiu o volante.
O carro deixou a frente da empresa sem que nenhum dos dois percebesse que, a partir daquele momento, cada gesto estava sendo observado.
*****
No trajeto até o restaurante, Helena abriu a pasta que levava consigo e comentou alguns pontos do projeto. O almoço, a princípio, deveria ser apenas uma parada rápida antes do embarque, mas Bruno havia escolhido um restaurante próximo ao aeroporto, reservado e discreto, o suficiente para que pudessem conversar sem interrupções.
— Revisei novamente as especificações do hall principal — disse Helena, olhando algumas anotações. — Se conseguirmos o bloco no tom que vimos no mostruário, a paginação vai ficar exatamente como imaginei.
Bruno desviou o olhar da rua apenas o suficiente para observá-la por um instante.
Helena falava com concentração, os olhos atentos aos papéis, os cabelos caindo levemente sobre um dos ombros, completamente absorvida pelo trabalho. Havia nela uma beleza tranquila, sem esforço, mas o que mais o atraía era aquela seriedade delicada com que se dedicava a tudo.

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