As horas passaram sem que nenhum dos dois percebesse.
O parque já não estava tão movimentado. Algumas barracas começavam a recolher seus produtos, enquanto famílias deixavam o local e os grupos de amigos se dispersavam. As luzes continuavam acesas entre as árvores, iluminando os caminhos por onde Eduardo e Helena haviam caminhado durante horas.
Eles já tinham andado bastante e, agora, caminhavam lado a lado em silêncio.
Não era um silêncio desconfortável, era tranquilo como se a presença um do outro os completasse.
Até que Eduardo parou.
Helena deu mais alguns passos antes de perceber que ele havia ficado para trás. Quando se virou, encontrou-o imóvel, olhando para algum ponto distante.
Havia algo diferente em seu semblante e Eduardo parecia não estar mais naquele parque. Uma lembrança havia surgido de repente.
Ele era apenas um menino, talvez tivesse oito ou nove anos.
Lembrou-se de uma tarde distante, de um parque muito parecido com aquele. Lembrou-se de suas pequenas mãos segurando um algodão-doce enorme, muito maior do que conseguia comer. Leonardo corria alguns metros à frente, rindo enquanto tentava alcançar alguma coisa que ele já não conseguia lembrar.
Mais atrás, seus pais caminhavam juntos. Gilberto segurava a mão de Olívia, e os dois sorriam enquanto observavam os filhos.
Por um instante, Eduardo quase conseguiu ouvir a própria risada de criança.
Sentiu novamente o vento no rosto, ouviu a voz de Leonardo chamando por ele e teve a estranha sensação de que aquela tarde nunca havia realmente desaparecido. Apenas ficara esquecida em algum lugar dentro dele.
— Eduardo?
A voz de Helena o trouxe de volta e ele piscou algumas vezes.
— O quê?
— Você ficou quieto de repente.
Eduardo olhou para ela. Havia um pequeno sorriso nos lábios de Helena, mas seus olhos demonstravam preocupação.
Ele respirou profundamente antes de responder.
— Eu estava me lembrando de uma coisa. — Eduardo voltou os olhos para o parque. — Da minha infância.
Helena permaneceu em silêncio, esperando.
— Faz tanto tempo... — murmurou ele. — Às vezes acho que a gente simplesmente esquece que um dia foi criança. Que já correu sem se preocupar com o amanhã. Que podia passar uma tarde inteira fazendo coisas que hoje parecem insignificantes.
Helena o observava atentamente e não disse nada.
— A vida parecia mais simples. — Eduardo sorriu de leve, mas havia uma ponta de melancolia naquele sorriso. — E… mais feliz também.
Por alguns minutos, Eduardo não era o poderoso empresário, o homem que todos respeitavam e temiam, nem o responsável por um império construído sobre decisões difíceis.
Era apenas um homem caminhando ao lado de uma mulher que, sem perceber, havia conseguido fazê-lo reencontrar uma parte de si mesmo que acreditava ter perdido havia muitos anos.
Eduardo voltou a olhar para Helena.
— Obrigado.
Ela franziu levemente a testa.
— Pelo quê?
Ele pensou em responder, mas desistiu.
— Por nada e… por tudo
Helena sorriu para ele e Eduardo percebeu que talvez aquela fosse a resposta mais verdadeira que poderia dar.
Depois de alguns segundos, olhou para o relógio.
— Está ficando tarde. É melhor voltarmos. Amanhã será um dia cheio.
— Tudo bem.
Eduardo pegou o celular e ligou para Nelson.
Não demorou muito para que o carro surgisse próximo à entrada do parque. Na verdade, Nelson permaneceu por perto durante toda a noite, assim como os seguranças, mantendo distância suficiente para que o casal pudesse aproveitar aquela pequena fuga da rotina.
O motorista desceu imediatamente e abriu a porta. Eduardo fez um gesto para que Helena entrasse primeiro, ele entrou logo depois.
A SUV dos seguranças apareceu alguns metros atrás e os homens acompanharam o carro assim que partiram.
Eduardo permaneceu em silêncio. Naquela noite, por algumas horas, ele havia esquecido contratos, reuniões, cifras, responsabilidades e até mesmo o nome que carregava. Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando pela janela enquanto as luzes do parque desapareciam pouco a pouco.
Então voltou os olhos para Helena.
— Obrigado pela noite.

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