Era uma cena de tormenta em alto-mar. As ondas agitadas ocupavam quase toda a composição, carregadas de movimento e força. Mas, ao fundo, quase escondida entre as nuvens que começavam a se abrir, havia uma faixa de mar tranquilo.
Bruno permaneceu em silêncio diante dela.
— Essa é impressionante.
Bianca sorriu discretamente.
— É uma das minhas favoritas.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— A tempestade está em primeiro plano, mas não é isso que prende a atenção. — Ele apontou para o horizonte. — Mesmo quando tudo parece perdido, sempre existe algum lugar onde a tempestade termina.
Bruno olhou para ela e por um instante, pareceu que a frase tinha um significado muito maior do que o quadro.
— É a calmaria. — Ele voltou a observar a pintura. — Você coloca sentimentos nas suas obras.
— Acho que sim.
— Não. — Ele sorriu levemente. — Você coloca os seus sentimentos.
Bruno ficou mais alguns segundos diante da tela.
— É como se a tempestade não fosse permanente. Como se, apesar de toda aquela força, houvesse algo esperando depois dela.
Bianca sentiu um aperto no peito. A descrição dele havia tocado em algo muito mais profundo do que pretendia revelar e era exatamente aquilo que ela havia sentido quando a pintou.
Bruno continuou pelo ateliê e outra tela chamou sua atenção.
Era a pintura de uma jovem diante do mar, segurando uma flor. Algumas pétalas haviam sido levadas pela água e flutuavam sobre a água.
— Essa também tem uma história.
Bianca sorriu de leve, mas não fez nenhum comentário.
— Essa parece falar de perda.
Ela abaixou os olhos.
— Talvez.
Bruno voltou a olhar para a tela.
— Mas ela não parece derrotada.
Bianca ergueu os olhos para ele.
— Não?
— Não. Parece que ela está deixando alguma coisa ir... mesmo sem querer.
O coração de Bianca apertou. Por um instante, teve a sensação de que Bruno estava enxergando muito mais do que deveria.
Ela desviou o olhar.
— Você observa bastante.
Ele sorriu.
— Seus quadros dizem algo que toca.
Bruno caminhou até o próximo cavalete.
— Você realmente tem talento, Bianca.
Ela sorriu, sem saber o que responder. Então ele olhou para outra tela.
Era a tela.
Aquela que representava duas pessoas, sem que seus rostos permitissem identificá-las. Havia proximidade entre as figuras, mas também uma distância difícil de explicar, como se estivessem ligadas por algo que nenhum dos dois conseguia alcançar completamente.
Bruno ficou imóvel e seu olhar percorreu a composição lentamente. Havia alguma coisa naquela tela que o incomodava. Ou talvez o atraísse.
— Essa...
Bianca sentiu o coração parar por um instante.
— O que tem?
Ele continuou observando.
— Não consigo identificar exatamente quem são, mas… — Fez uma pausa. — Parece que essas duas pessoas querem estar juntas e, ao mesmo tempo, têm medo do que pode acontecer se se aproximarem demais. Há algo familiar nela
O coração de Bianca quase parou.
Ele finalmente se afastou e Bianca suspirou aliviada.
— Você é muito talentosa, Bianca.
Ela ergueu os olhos.
— Obrigada.
Bruno sorriu e voltou a olhar para as telas. Ele não fazia ideia de que, escondida atrás de várias outras, havia uma pintura que jamais deveria ser vista.
Pouco depois, Bruno olhou para o relógio.
— Já é tarde. Preciso ir.
Bianca assentiu, e os dois deixaram o ateliê.
Com todos na casa já dormindo, não ficava bem que Bruno demorasse ainda mais. Ciente disso, ele se encaminhou para a porta.

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