Longe dali, sem imaginar o que estava acontecendo com Helena, Bianca recebia em seu ateliê Augusto Valença.
Ela permanecia em um canto do pequeno espaço, apreensiva, enquanto o galerista, elegante em um terno grafite de corte impecável, camisa clara e sapatos de couro, analisava suas obras com a atenção de quem estava acostumado a encontrar beleza, mas também a reconhecer talento.
Augusto não fazia comentários precipitados. Permanecia diante de cada tela por longos segundos, observando em silêncio. Às vezes se afastava alguns passos para enxergar a composição como um todo; em outras, aproximava-se até quase tocar a tela com os olhos, examinando pinceladas, contrastes e detalhes.
Bianca acompanhava cada movimento, sentindo o coração bater mais rápido.
Ele começou pelas mesmas telas que Bruno havia observado com mais calma naquela noite. Depois pediu para conhecer outras obras.
— Tem mais?
— Tenho algumas — respondeu Bianca.
Ela abriu um armário e retirou outras telas e pegou outras empilhadas num canto.
Augusto continuou examinando uma por uma.
— Você trabalha principalmente com óleo?
— Sim. Algumas obras são acrílicas, mas prefiro o óleo.
Ele assentiu.
— Percebi.
Parou diante de uma das telas e inclinou levemente a cabeça.
— Você tem um domínio de luz muito interessante. Não utiliza o contraste apenas para destacar o objeto principal. Usa a luz para conduzir o olhar de quem observa.
Bianca piscou, surpresa.
— Eu nunca pensei dessa maneira.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— É justamente por isso que funciona. Você não está tentando mostrar ao observador onde ele deve olhar. Ele simplesmente olha.
Bianca abaixou os olhos, sem saber o que responder.
Augusto passou para outra tela.
— E há algo mais importante aqui.
Ela ergueu o olhar para ele.
— Identidade.
Ele voltou a observar o quadro.
— Suas obras não parecem cópias de uma escola específica. Há referências, naturalmente, mas você não está tentando ser outra pessoa. Isso é raro.
Bianca sentiu um calor subir pelo rosto.
Ele pediu para ver mais algumas telas. Com calma e paciência, continuou seu exame até chegar à última, que permanecia coberta por um pano.
Augusto estendeu a mão para retirar o tecido.
Bianca entrou em pânico.
— Desculpe, senhor Valença, mas esse é muito pessoal e não faz parte do meu acervo.
A mão dele parou. Augusto olhou para Bianca e, pela primeira vez, deixou escapar um sorriso divertido.
— Esses costumam conter uma grata surpresa.
Bianca ficou ainda mais constrangida, mas ele não insistiu.
— Mas quem sabe um dia ainda poderei vê-la.
Augusto então voltou a atenção para o restante do ateliê.
Apesar de pequeno, o ambiente era muito bem organizado. Cavaletes ocupavam alguns espaços, havia porta-pincéis cuidadosamente dispostos, armários com materiais e várias telas encostadas nas paredes.
Ele observou tudo por alguns instantes antes de voltar-se para Bianca.
— Bem, senhorita Soares, vou ser sincero, como preciso ser.
Bianca ficou apreensiva.
Augusto olhou novamente para as obras expostas nos cavaletes, dessa vez com uma expressão menos crítica e mais admirada.
— Suas obras são impressionantes.
Bianca permaneceu em silêncio.
— Você tem uma técnica muito acima do que encontrei na maioria dos artistas que comecei a acompanhar nos últimos anos. Mas não é apenas técnica. Existe sensibilidade. Existe personalidade. E existe algo que não se aprende em nenhuma escola.
Ele fez uma pequena pausa.
— Você tem algo a dizer através da pintura. — Concluiu ele.
Os olhos de Bianca começaram a se emocionar e Augusto sorriu.
— E é por isso que eu gostaria de lançá-la em minha galeria.
Bianca levou alguns segundos para compreender.
— O senhor... está falando sério?

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