A música envolveu os dois, e, em poucos segundos, estavam em perfeita sintonia. Os movimentos eram precisos e elegantes. Para quem observava, era o retrato de um casal impecável, harmônico, feito um para o outro.
Mas por trás da dança, havia tensão. Os olhares se cruzavam mais do que o necessário. A mão de Eduardo em sua cintura era firme com uma atitude de posse a trazendo mais para perto. Cada gesto parecia dizer algo que não podia ser dito em voz alta.
E, do alto do mezanino, alguém observava.
Um homem imóvel, expressão neutra demais para ser natural. O olhar fixo, duro, mas impossível de decifrar. Ele não perdia um único movimento.
Eduardo como se sentisse algo, ergueu os olhos e por um instante e parou. No mezanino, o homem recuou para a sombra.
— O que foi? — perguntou Helena desviando o olhar de Eduardo e olhando na direção que ele olhava.
Eduardo demorou um segundo antes de responder.
— Nada… pensei ter visto alguém conhecido.
O homem recuou ainda mais na sombra antes de se afastar, buscando uma saída secundária. Caminhava rápido, mas sem chamar atenção, mantendo a cabeça baixa e evitando cruzar olhares, como se temesse ser reconhecido.
Ao deixar o prédio, seguiu direto até um carro esportivo de luxo estacionado à distância. Entrou, fechou a porta com mais força do que pretendia e agarrou o volante.
A respiração irregular e por um instante, fechou os olhos e a tensão em seu rosto denunciou mais do que pressa.
Culpa.
Quando voltou a encarar o para-brisa, havia decisão em seu olhar.
Ligou o carro e o motor respondeu com um rugido e ele arrancou pela rua. As luzes traseiras vermelhas se afastaram rapidamente, até desaparecer na escuridão.
*****
Na varanda mais afastada do salão, Laura encarava Rogério com evidente irritação. Os braços cruzados contra o peito deixavam clara sua impaciência.
— E você quer que eu acredite nessa história?
— Não é uma história, Laura. Foi exatamente o que aconteceu — insistiu ele, tentando manter a calma.
— Então o que eu vi? — retrucou ela, a voz carregada de raiva. — Ela sentada na sua mesa, inclinada sobre você… foi o quê? Ilusão de ótica?
Rogério passou a mão pelos cabelos, visivelmente tenso.
— Eu sei como parece, mas ela apareceu no escritório dizendo que queria tratar de negócios. Eu achei que fosse sério… recebi como receberia qualquer parceiro. Só que… — ele hesitou — ela começou a se insinuar. Disse que gostava de mim.
Laura manteve o olhar duro, mas havia uma sombra de dúvida surgindo.
— E eu disse não — continuou ele, mais firme. — Disse que estava noivo, que amava você e que nunca faria isso. Laura… eu nunca te traí. Você precisa acreditar em mim.
Por um instante, o olhar dela vacilou e a lembrança veio nítida, Viviane sentada sobre a mesa de Rogério, inclinada na direção dele, próxima demais, parecia que se beijavam. Então Rogério a viu, seus olhos arregalaram.
— Laura, não é o que você está pensando — Rogério tentou explicar, levantando-se rápido demais.
— Explicar! Não há nada pra ser explicado… eu estou vendo com os próprios olhos.
— Eu sabia que você ia entender errado — disse Viviane naquele dia, se afastando com falsa tranquilidade. — Acho melhor eu ir… não quero causar problemas entre vocês.
A voz era suave, quase inocente. Ela saiu e então veio a discussão, Rogério tentando se explicar e Laura pegando o anel de noivado e jogando na cara de Rogério.
De volta ao presente, Laura respirou fundo, como se ainda lutasse contra aquela lembrança.
— Eu sei o que vi, Rogério — disse, por fim.
— Mas nem tudo é o que parece — respondeu ele, a voz mais baixa, quase um pedido. — Nós nos conhecemos há tanto tempo… desde o início, eu soube que você era a única mulher da minha vida.
O coração dela vacilou, mas o olhar permaneceu firme.
— Eu não sei se consigo confiar em você de novo.
— Me dá uma chance. — Ele deu um passo à frente, cauteloso. — Eu sei que você me ama. A gente não pode deixar uma pessoa como a Viviane destruir o que temos.

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