O restante do dia transcorreu de forma tranquila, entre passeios pela chácara, conversas amenas e momentos surpreendentemente leves.
À noite, durante o jantar, o clima entre a família era harmonioso. Risadas discretas, histórias antigas e comentários descontraídos preenchiam a mesa em uma atmosfera acolhedora e familiar.
Pela primeira vez desde o casamento, Helena se permitiu sentir como se realmente fizesse parte daquela família.
Depois do jantar, todos se reuniram na sala de estar.
Gilberto e Eduardo acomodaram-se diante de uma mesa de xadrez, enquanto Carmen, Olívia e Helena tomavam chá e conversavam no sofá.
As horas passaram rapidamente.
Em determinado momento, Carmen lançou um olhar para o relógio e depois encarou Olívia de maneira significativa.
— Está ficando tarde. Acho melhor irmos dormir.
O olhar dela então recaiu sobre o neto.
— Eduardo.
Ele sequer ergueu os olhos do tabuleiro.
— Vocês podem ir. Papai e eu vamos terminar essa partida.
— Vocês já jogaram demais por hoje. — protestou Carmen com falsa severidade. — E você deveria acompanhar sua esposa.
Helena percebeu imediatamente a intenção da avó e tentou aliviar a situação.
— Não se preocupe, vó. — disse ela com carinho, já acostumada a chamá-la assim. — Eu estou cansada. O dia foi maravilhoso e o Eduardo pode terminar a partida com o senhor Gilberto.
Dito isso, levantou-se do sofá. Olívia e Carmen também começaram a subir a escada, mas antes que Helena alcançasse a escada, a voz de Carmen a fez parar.
— Você não vai dar um beijo de boa-noite no seu marido?
Helena congelou no mesmo instante e as faces aqueceram imediatamente. Sem saber como reagir, ela olhou para Eduardo.
Até Eduardo pareceu genuinamente surpreso pelo comentário da avó. Sem alternativa, Helena aproximou-se lentamente.
— Boa noite, querido… — disse em voz baixa.
Ela inclinou-se discretamente para beijar o rosto dele, mas, no último instante, Eduardo virou levemente a cabeça.
Os lábios dos dois se encontraram em um beijo rápido, mas suficiente para fazer o coração de Helena disparar e ela corou imediatamente.
Do outro lado do tabuleiro, Gilberto observava a cena em silêncio, com uma expressão difícil de interpretar.
Eduardo então ergueu os olhos para Helena.
— Boa noite, querida.
A voz saiu suave. Mas, quando os olhos dos dois se encontraram, Helena percebeu que o olhar dele continuava frio e sem nenhum tipo de emoção e isso tornou aquele beijo ainda mais desconcertante.
Depois que Helena se foi, Eduardo voltou a atenção para o tabuleiro como se nada tivesse acontecido movimentando as peças calmamente, logo depois a partida terminou e ele ganhou novamente.
— Vamos jogar outra? — perguntou sem demonstrar emoção.
Gilberto permaneceu alguns segundos olhando para o filho antes de responder:
— Você não quer ir para o quarto, não é?
Eduardo ergueu os olhos lentamente, pai e filho se encararam em silêncio. Os dois tinham os mesmos olhos escuros e igualmente difíceis de decifrar. Mas Gilberto conhecia o filho melhor do que ninguém.
— Filho, esse casamento continua sendo apenas um acordo no papel?
Eduardo desviou os olhos para o tabuleiro.
— Esse sempre foi o acordo.
Gilberto continuava observando o filho atentamente.
— Deve ser difícil. — disse ele em tom pausado. — Helena é uma mulher muito bonita… e atraente. Não dá para negar.
A expressão de Eduardo não mudou.
— Isso não altera o fato de ela ter aceitado esse casamento por dinheiro. — respondeu friamente.
Gilberto franziu levemente a testa.
— Sinceramente, ela não me parece esse tipo de mulher.
Eduardo soltou um leve sorriso sem humor.
— Todos têm um preço.
— E você? Tem certeza de que continua vendo Helena apenas como parte de um contrato?
Eduardo demorou a responder.
— Isso não importa.
— Importa sim. Principalmente porque está cada vez mais difícil esconder a forma como olha para ela.
O maxilar de Eduardo travou discretamente.
— O senhor está imaginando coisas.
— Talvez. — Gilberto apoiou-se na cadeira. — Mas hoje eu vi um homem bastante atencioso com a esposa.
Eduardo desviou o olhar.

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