— Desgraça pouca é bobagem. — murmurou apertando os lábios. — Hoje deveria ser um dia de comemoração.
Bernardo acompanhou discretamente a direção do olhar dela.
Uma mulher extremamente bonita acabava de entrar no restaurante acompanhada de um homem mais velho.
Ela chamava atenção naturalmente. Não apenas pela beleza, mas pela forma como parecia gostar dos olhares voltados para si.
O homem ao lado dela sorria discretamente, orgulhoso da atenção que recebiam. Pai e filha, provavelmente.
— Você a conhece? — perguntou Bernardo.
Laura soltou uma risada curta, sem humor.
— Infelizmente, sim. — Os olhos dela escureceram imediatamente. — Aquela ali é Viviane Teles.
Viviane caminhava pelo restaurante elegante, impecável e consciente dos olhares que atraíam, mantinha o sorriso de quem sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas.
Ao passar pela mesa de Rogério, diminuiu discretamente os passos.
— Rogério. — cumprimentou com suavidade.
Ele respondeu com um aceno, mas o olhar duro denunciava o desconforto imediato ao vê-la. Viviane então voltou o rosto lentamente na direção da mesa onde Laura estava.
E sorriu, um sorriso bonito e cheio de desdém. Mas o olhar dela mudou ao notar Bernardo sentado à frente de Laura.Os olhos percorreram o homem alto e elegante de forma claramente insinuante.
Laura sentiu o sangue ferver, ela conhecia bem aquele olhar.
As duas haviam frequentado o mesmo círculo social nos Estados Unidos e, durante um tempo, chegaram até a ser amigas. Viviane parecia pertencer naturalmente à elite. Sempre impecável, roupas caras, joias valiosas, viagens constantes e restaurantes luxuosos.
Mas havia algo nela que nunca fechava completamente, principalmente quando o assunto era família. Viviane sempre desconversava, mudava de assunto com habilidade e inventava histórias vagas.
E foi justamente isso que despertou a atenção de Laura, ela começou a observá-la com mais cuidado. Até que, certa noite, viu Viviane entrando em um hotel de luxo acompanhada de um homem bem mais velho.
Na época, pensou se tratar do pai dela, mas dias depois descobriu que o homem era casado… e tinha apenas um filho e nenhuma filha.
As suspeitas de Laura aumentaram imediatamente e ela decidiu investigar discretamente. O que descobriu depois explicava perfeitamente o padrão de vida luxuoso que Viviane sustentava.
Ao contar tudo para Rogério, porém, ele não acreditou. Os dois discutiram diversas vezes por causa dela. Rogério dizia que Laura estava exagerando, sendo ciumenta e paranoica. Até o dia em que ela encontrou Viviane inclinada sobre ele no escritório.
Depois disso, tudo desmoronou.
Bernardo percebeu imediatamente a hostilidade no olhar de Laura ao observar Viviane atravessar o restaurante.
— Pelo visto vocês não são amigas. — comentou em tom calmo.
Laura soltou uma breve risada sem humor.
— Aquela vadia é responsável pelo fim do meu noivado.
Bernardo sempre mantinha uma expressão tranquila e um leve sorriso nos lábios, pareceu genuinamente surpreso. A expressão sempre serena vacilou por um instante.
— Então aquele homem lá fora…
— Rogério. — completou Laura antes mesmo que ele terminasse. — Nós estávamos noivos há anos.
Ela desviou os olhos por um momento, tentando manter a compostura.
— Viviane se aproximou de nós como amiga. Ganhou nossa confiança… principalmente a dele.
Bernardo permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente.
— Quando comecei a desconfiar dela, Rogério achou que eu estava exagerando. — Laura apertou os dedos ao redor da taça. — Até que um dia encontrei os dois sozinhos no escritório dele.
A mandíbula dela endureceu com a lembrança.
— E aquilo foi suficiente para acabar com tudo.
— Você acredita que ele realmente a traiu?
Laura ficou em silêncio por alguns segundos. E aquilo, por si só, já era uma resposta.
— Não sei mais no que acreditar. — admitiu por fim, mais baixo. — Parte de mim acha que talvez eu tenha interpretado tudo errado… mas a outra parte lembra da cena até hoje.
Bernardo observou Laura com atenção. Ela parecia forte, decidida e até intimidadora às vezes, mas naquele instante, havia algo vulnerável nela, machucada.

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