Lorenzo Bianchi
Saí do apartamento dela com o gosto amargo da despedida grudado na boca. Não era um adeus, não exatamente. Mas também não era um até logo. Era aquela terra de ninguém onde a esperança e a dor se encaram de longe, esperando pra ver quem cai primeiro.
Desci os degraus do prédio como quem volta de uma guerra. Um soldado sem glória, sem medalha, apenas com as mãos vazias e o peito em ruínas. O ar de Veneza estava úmido, como sempre, mas naquela manhã parecia mais denso. Como se o mundo soubesse que algo tinha quebrado em silêncio dentro de mim.
Não esperei o vaporetto. Caminhei até a estação como se o chão pudesse me guiar sozinho. Peguei o trem para a Toscana sem pensar muito. Precisei sair dali. Ir pra algum lugar que ainda fizesse sentido. Que me lembrasse de quem eu era antes de estragar tudo.
Durante as duas horas de viagem, tentei me preparar. Mentalmente. Emocionalmente. O problema é que não existe manual pra isso. Nenhuma respiração profunda cura o arrependimento. Nenhuma música baixa o suficiente silencia a culpa.
E mesmo assim, nada — absolutamente nada — me preparou para quando coloquei os pés de volta naquela cidade. Naquele lugar onde cada canto carregava o nome dela. Onde Aurora e eu crescemos, tropeçamos juntos, aprendemos a sobreviver à infância com promessas feitas de bicicleta e sonhos maiores do que os campos que nos cercavam.
A estação estava vazia. Uma névoa leve cobria o vilarejo como um véu de luto. Peguei um táxi antigo até a casa dos meus pais. O motorista me reconheceu pelo espelho retrovisor, mas não disse nada. Só fez um leve aceno de cabeça, como se soubesse que conversa seria um fardo.
Assim que o carro parou diante do portão, eu senti. Aquela pressão no ar. Como uma tempestade prestes a cair, só que sem trovões — ainda.
Empurrei o portão com cuidado. E mal tive tempo de respirar o cheiro da terra molhada quando a porta da frente se abriu com força.
— Finalmente o dom Juan volta pra casa. — A voz de Matheu cortou o ar como lâmina. Ele estava parado ali, no topo dos degraus, os braços cruzados, o maxilar travado.
Engoli seco.
— Tio Matheu…
Ele desceu os degraus devagar, com o olhar de alguém que tinha mantido um vulcão aceso por tempo demais.
— Você tem ideia do que fez? Do estrago que causou? Da dor que deixou pra trás? Eu te avisei, para não machucar minha menina.
— Eu não vim aqui pra brigar — disse, tentando manter a calma.
— Ótimo. Porque você vai ouvir. — Ele avançou dois passos. — Você acha que vir até aqui, com essa cara de arrependido, resolve alguma coisa? Que um "desculpa" vai colar os pedaços que sobraram da minha filha?
Aquela palavra me atingiu como uma pedra.
Minha filha.
Tio Matheu nunca precisou verbalizar isso pra me lembrar da ligação deles. Mas agora ele estava deixando claro: eu era o inimigo.
— Eu sei que errei. Eu sei que fiz merda, tio. Mas eu não fui o único...
— Não ouse. — A voz dele saiu baixa, mas feroz. — Não ouse dividir essa culpa com ela. Você sabe o quanto ela te ama? O quanto te defendeu? Até quando tudo já estava desabando?
Eu não respondi. Porque não tinha como. Porque ele tinha razão.
Tio Matheu se aproximou mais, e por um segundo achei que ele fosse me empurrar, me socar, qualquer coisa. Mas ele parou a poucos centímetros, com os olhos ardendo.
— Se você tivesse tocado um centímetro do corpo dela depois de tudo… — ele murmurou, com veneno escorrendo em cada sílaba — eu juro por Deus, Lorenzo, você não sairia daqui inteiro. Se tivesse tornado ela sua...
Senti o estômago se fechar. Quando ele tentou mencionar que poderia ter feito da Aurora minha mulher.
— Eu não toquei nela. Não é dessa forma que a quero. — Falei com firmeza, porque essa era a única verdade que eu ainda tinha pra oferecer. — Eu a amei. E ainda amo.
— Então prove. — Ele deu um passo atrás. — Não pra mim. Mas para ela. Não com palavras, não com flores, não com essa pose de mártir. Prove ficando longe até que ela queira você de volta. Se é que esse dia vai chegar. E espero de coração que ela encontre alguém que valha a pena em Veneza e volte para casa no mínimo noiva.
Fiquei ali parado, imóvel, enquanto ele se virava e voltava pra dentro da casa. A porta bateu com força. Um ponto final para ele. Mais um travessão pra mim.
Respirei fundo, tentando me manter inteiro. O vento da Toscana tinha cheiro de terra molhada e lembrança.
********
Naquela noite, sentei na varanda com uma xícara de café frio entre as mãos e o silêncio da Toscana pesando nos ombros. A casa dos pais da Aurora estava a poucos metros, silenciosa, intacta, como se o tempo tivesse parado ali. Meus olhos ficaram presos naquela fachada como se ela fosse uma extensão da própria Aurora — firme por fora, mas cheia de rachaduras que ninguém via.

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