Lorenzo Bianchi
Aurora sempre foi silêncio e intensidade ao mesmo tempo. Um universo inteiro escondido num olhar. E agora, sentada ao meu lado naquela colina, com o sol subindo devagar atrás dela, era como se eu estivesse olhando de novo pro amor da minha vida… e ainda não soubesse se teria permissão pra tocá-lo.
Ela falou pouco. Mas o suficiente pra me lembrar de tudo que perdemos — e tudo que, talvez, ainda estivesse ali.
Mas eu precisava mais. Precisava arriscar. Precisava dizer o que minha garganta segurava há semanas.
Virei de frente pra ela, deixando o medo de lado por um instante.
— Aurora… — minha voz saiu firme, apesar do coração. — Volta pra mim.
Ela não respondeu.
Nem me olhou.
Apenas se levantou com uma delicadeza que parecia ensaiada, como se o próprio corpo já soubesse que não havia resposta fácil pra aquilo. O vento brincava com os cabelos dela, e tudo em mim queria correr, segurar sua mão, implorar.
Mas eu não podia pressionar. A dor dela também era minha.
Ela começou a andar, os passos leves em direção à casa dos pais. Cada passo era um soco lento no meu peito.
— Aurora… — chamei de novo, com mais urgência.
Ela parou. De costas pra mim.
— Se mudar de ideia… — falei, tentando não engasgar nas palavras — estou te esperando na adega. Tenho algo pra você.
Ela não se virou. Apenas continuou andando.
Fiquei ali, parado no meio da colina, com a sensação de que o destino havia me deixado em suspenso. Mas mesmo sem saber se ela viria… comecei a caminhar em direção à adega.
Eu precisava terminar o que comecei. Porque esse era o meu jeito de dizer tudo o que ainda não cabia em palavras.
A adega ficava no porão reformado da casa antiga dos meus pais. Era um lugar que sempre me deu paz — e foi aqui que, nos últimos meses, eu despejei tudo o que restava de mim no trabalho. No vinho. No rótulo. Na essência. No nome.
Aurora.
Um vinho tinto encorpado, não alcoólico. Feito com as melhores uvas da safra passada, fermentado lentamente, conservando o sabor da fruta, a memória da terra, e a doçura que me lembrava dela. Era mais do que um vinho. Era uma declaração engarrafada. O primeiro que desenvolvi sozinho.
E agora, eu ia oferecer isso a ela. Mesmo que ela nunca aceitasse.
Passei a tarde inteira preparando o espaço. Cada detalhe, cada flor, cada luz. Não pra impressionar — mas pra transmitir o que ainda batia aqui dentro.
Coloquei uma mesa pequena de madeira no centro, rústica, coberta com uma toalha de linho claro. Sobre ela, um arranjo de lavandas, alecrim e orquídeas — suas favoritas. As flores foram colhidas do quintal da minha mãe naquela manhã, ainda com orvalho nas pétalas. Ao lado, duas taças de cristal, delicadas e limpas como promessas não feitas.
Espalhei luzes de corda pelo teto de tijolos, deixando o ambiente suave, íntimo. Como uma memória boa que se acende aos poucos. O ar estava perfumado com um toque de baunilha e uva, que vinha direto das barricas e da própria garrafa que eu deixei no centro da mesa, envolta por uma fita de seda roxa.
O rótulo era simples, elegante. Em letras manuscritas:
“Aurora – para o amor que nunca escureceu.”
Preparei também uma pequena cesta com pães frescos, queijo local e frutas secas. E no canto, sobre um aparador antigo, deixei um bilhete escrito à mão:
“Esse vinho carrega teu nome, mas também carrega meu coração.
Cada nota dele foi feita pra te lembrar que o amor verdadeiro pode amadurecer, mesmo depois de ter se partido.
Se você aceitar beber essa taça comigo, não é um recomeço forçado.
É só um passo.
E eu te espero, sem pressa.
— Lorenzo”
Apaguei a luz do ambiente principal e deixei só as lâmpadas baixas piscando suavemente.
Então, esperei.
Sentado no sofá de couro envelhecido do fundo da adega, com a garrafa entre as mãos e o coração nas mãos também.
Não sabia se ela viria.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, não era o medo que me movia. Era a fé. Não numa resposta imediata, mas na força de um sentimento que, mesmo em silêncio, ainda vibrava entre nós.
Porque o amor verdadeiro, esse que a gente constrói com erros, saudades e recomeços… nunca deixa de existir.
Ele só espera o tempo certo pra ser saboreado.
Como o vinho. Como ela.
Como nós.
O tempo passa diferente quando a gente espera por algo que talvez nunca aconteça.
Cada segundo ali na adega parecia mais longo do que os meses que passei tentando esquecer Aurora.
O silêncio me fazia companhia, junto com as lembranças. Do riso dela, do jeito como franzia a testa quando estava concentrada, do som dos passos dela subindo a escada da antiga casa dos pais.
Eu não sabia mais o que sentir. Esperança? Medo? Cansaço?

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