“O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” Shakespeare
Silvia encarava a tela do celular com os dedos apertando o aparelho além do necessário, como se pudesse esmagar a imagem que insistia em brilhar ali. No dia seguinte, ela se casaria com Cássio — e ainda assim aquela mulher conseguia roubar a atenção que deveria ser dela.
Enquanto as redes se enchiam de elogios, manchetes e comentários sobre Helena e o noivado reluzente com Santiago, o casamento dela parecia quase invisível. Fora a publicação de Viviane e uma breve menção feita pelo repórter durante a feira — apenas uma nota perdida no meio da pequena entrevista —, praticamente ninguém parecia interessado na união que deveria ser o evento central de sua vida.
Ela já estava em casa. O vestido de noiva pendia de um gancho na parede. O branco do tecido refletia uma pureza quase dolorosa, completamente incompatível com o turbilhão que a consumia por dentro. Por fora, Silvia sempre fora impecável — um camaleão elegante, capaz de se adaptar ao ambiente, às expectativas, às circunstâncias. Por dentro, porém, não havia nada de sereno que combinasse com aquele vestido.
Cássio ainda não havia chegado.
Ela tentara ligar mais de uma vez. Nenhuma chamada atendida.
Ele tivera a ousadia de deixá-la sozinha na véspera do casamento.
O silêncio da casa parecia expandir-se pelos cômodos como algo vivo, pressionando seus ouvidos, amplificando cada pensamento indesejado. Não era apenas raiva o que a dominava.
Era também angústia.
Uma sensação sufocante de que tudo — absolutamente tudo — estava escapando de seu controle.
A tela do celular apagou-se lentamente em sua mão enquanto as pedras do corpete do vestido, delicadamente bordadas sobre a renda caríssima, cintilava sob a luz do abajur como pequenos fragmentos de gelo.
Silvia manteve o olhar fixo naquele brilho artificial, como se pudesse encontrar ali alguma resposta, algum plano, alguma saída para o caos que se acumulava dentro dela.
Talvez pudesse usar os mesmos meios de Helena para se promover. A exposição pública, a comoção, a narrativa cuidadosamente construída… Dante certamente desaprovaria — e a simples ideia de contrariá-lo fazia um frio percorrer sua espinha. Mas, por outro lado, não seria também uma forma de proteção? Se todos estivessem olhando para ela, se sua imagem estivesse em evidência, seria mais difícil que algo lhe acontecesse sem levantar suspeitas.
Seu olhar deslizou lentamente para baixo, pousando no par de sapatos disposto logo abaixo do vestido. Um scarpin elegante, ornamentado com as mesmas pedras brilhantes, perfeitamente alinhado como se aguardasse silenciosamente o momento de ser usado.
Parecia menos um acessório… e mais uma armadilha pronta.
Silvia levantou-se devagar, como se o próprio ar estivesse mais pesado, e aproximou-se do vestido. Estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o tecido — como se temesse que o contato pudesse tornar tudo real demais.
Quando finalmente encostou os dedos na renda fria, sentiu um arrepio percorrer seu braço.
— Amanhã… — murmurou para si mesma, quase sem voz.
O casamento que deveria significar vitória agora parecia uma linha tênue entre segurança e ruína.
Seu reflexo no espelho ao lado devolveu-lhe um rosto pálido, os olhos mais escuros, quase febris. Por um instante, teve a sensação de não reconhecer a mulher que a encarava de volta.
Uma noiva.
Uma impostora.
Uma sobrevivente.
Ou talvez uma presa.
O celular vibrou de repente ainda em sua mão, fazendo-a sobressaltar-se violentamente. O coração disparou antes mesmo de olhar a tela.
Número desconhecido.
Silvia ficou imóvel por alguns segundos, encarando o aparelho. Então, com dedos trêmulos, atendeu.
— Alô?
Do outro lado, apenas silêncio. Um silêncio denso… atento. Como se alguém estivesse ouvindo sua respiração.
Silvia permaneceu imóvel, o telefone ainda colado ao ouvido, escutando apenas o próprio coração bater alto demais dentro do peito.
— Alô? — repetiu, a voz mais fina do que gostaria.
Nenhuma resposta.
A ligação caiu.
Ela afastou o aparelho lentamente, olhando para a tela apagada como se pudesse arrancar alguma explicação dali.
Um frio rastejou por sua nuca.
Talvez fosse apenas um engano.
Talvez.
Mas a sensação de estar sendo observada não foi embora.
Silvia ergueu a cabeça devagar, como se temesse que um movimento brusco pudesse denunciar sua própria inquietação. O silêncio da casa parecia diferente agora — não vazio, mas carregado, expectante, como se cada cômodo escondesse algo prestes a se revelar.
Ela caminhou até a janela do quarto e afastou levemente a cortina.
Lá fora, a rua estava quase deserta. Um poste iluminava o portão com uma luz amarelada e irregular, fazendo as sombras das grades projetarem linhas tortas sobre o chão. Nenhum carro passando. Nenhum pedestre.
Ainda assim…
Havia algo errado.
Seus olhos percorreram lentamente o jardim, os arbustos imóveis, a cerca, a calçada além do portão.
Forçou os olhos, tentando distinguir melhor na penumbra.
Cássio ficou em silêncio, permitindo que a memória emergisse com uma nitidez quase cruel.
Voltou ao instante em que Helena surgira na entrada do reservado. O susto que sentira ao vê-la ali enquanto Silvia permanecia praticamente pendurada nele. Lembrou-se da própria acusação precipitada, perguntando o que ela fazia ali, insinuando que o estava seguindo.
Helena respondera com a mesma frieza, dizendo que fora ele quem a chamara. E então mostrara a mensagem.
A lembrança seguinte veio ainda mais amarga: Silvia admitindo, com um sorriso debochado, que havia sido ela quem enviara a mensagem usando o celular dele. Disse que só queria que Helena “se divertisse também”. Depois disso, as risadas. Os comentários. A humilhação coletiva que se seguiu, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira inconveniente — não uma crueldade calculada.
O que mais o perturbava, agora, era recordar a própria estranheza diante da ousadia de Silvia. Ele fora claro ao exigir que ela não mexesse com Helena, e ainda assim ela fizera exatamente aquilo, na frente dele, sem o menor receio.
— A Silvia mandou uma mensagem para ela se passando por mim — disse, por fim, balançando a cabeça, como se ainda custasse acreditar. — Disse que eu tinha bebido demais para dirigir… que ela precisava vir me buscar.
Renato assentiu devagar, o peso da lembrança também recaindo sobre ele.
— É o que eu lembro também. — Passou a mão pelo rosto. — Até eu a tratei mal naquele dia. A Tânia também. Você tem noção de como é horrível perceber o quanto fomos injustos com ela?
Cássio engoliu em seco.
— Você não teve culpa. — A voz saiu baixa, carregada de vergonha. — Fui eu quem distorceu a imagem dela para todo mundo.
Renato permaneceu em silêncio por um instante, deslizando o dedo pela borda do copo.
— Mesmo assim… não é fácil. Me sinto um lixo só de lembrar. — Respirou fundo. — O que eu realmente não entendo é por que a Silvia faria aquilo.
A pergunta ecoou dentro de Cássio.
Ele voltou mentalmente àquela mesma noite, ao momento em que confrontara Silvia. À resposta dramática dela — lágrimas fáceis, voz trêmula, justificando tudo como consequência dos hormônios da gravidez. Disse que o amava demais, que sentia ciúmes, que estava insegura.
Na época, aquilo parecera plausível. Controlável. Ele acreditara que resolveria tudo afastando-a, abrindo uma filial e enviando-a para lá. Agora percebia o quanto fora ingênuo.
Mas o pior não era isso.
O pior era lembrar do que acontecera quando voltara para casa.
A raiva cega ao vê-la suspeitar de algo entre ele e Silvia. O ressentimento por ela ter saído do bar acompanhada por Santiago. Nem sequer se importara com o ferimento na mão dela — ferimento que ele próprio causara.
Recordou-se de puxar brutalmente o lençol que a cobria, expulsando-a do quarto como se fosse uma intrusa. E, como se não bastasse, de empurrá-la contra a parede quando ela tentou argumentar.
Um gesto que agora lhe parecia monstruoso.
Pensando com clareza, percebeu algo que na época ignorara: o brilho nos olhos dela já havia desaparecido. Restara apenas aquela frieza silenciosa — a mesma com que agora o encarava nas raras ocasiões em que seus olhares se cruzavam.
Mesmo continuando naquela casa, Helena já tinha ido embora. E ele fora cego demais para perceber.

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