Cássio ficou por um longo tempo olhando para a porta por onde Helena havia saído.
O som das vozes ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo houvesse se recolhido.
Não se lembrava de já ter se sentido tão exposto — não diante de um público, mas diante de si mesmo.
O que o assustava não era a vergonha, e sim aquele aperto inexplicável no peito, um desconforto que ele não sabia nomear.
O castelo de aparências que construiu com tanto zelo tremia por dentro.
A fachada de sucesso, o respeito, os olhares admirados — tudo o que sempre quis, de repente, parecia um pouco sem cor.
E o que o desarmou não foi as acusações veladas de Helena, foi a indiferença.
Aquela frieza calma no olhar de dela, como se ela tivesse, enfim, deixando de sentir...
Durante os últimos anos, o amor dela fora seu vício mais intenso — mais embriagante que qualquer conquista, mais doce que qualquer vitória.
E agora, imaginar vê-lo sequer estremecer era como perder a própria gravidade.
Mas Cássio não estava pronto para admitir isso.
Balançou a cabeça, como quem espanta um pensamento inoportuno.
Não, não podia ser.
Helena sempre o amara, sempre amaria.
Era só uma fase, um rompante de orgulho.
Ele a conhecia melhor do que ninguém — bastava um gesto de afeto, uma atenção calculada, e ela voltaria.
Ela sempre voltava.
Endireitou o corpo, forçou o velho sorriso ensaiado de homem vitorioso e, mesmo sem convicção, voltou-se aos convidados, fingindo interesse nas conversas que continuavam.
O som dos risos soava oco.
Então sentiu uma presença a seu lado.
Silvia se aproximou, tocando-lhe com uma naturalidade ensaiada.
As unhas vermelhas, longas e pontiagudas, arranharam-lhe levemente o pulso — uma carícia mais próxima de uma marcação de território.
Por um segundo, ele fechou os olhos, e o que viu não foi Silvia, mas sim as mãos de Helena.
Mãos simples, delicadas, sem verniz colorido — apenas uma fina camada transparente que parecia proteger a pureza de quem não precisava de adereços para ser notada.
A lembrança o arrastou de volta a uma viagem antiga.
Estavam diante de uma plantação de girassóis, o vento balançando as flores douradas sob o pôr do sol.
Helena ria — aquela risada solta, despretensiosa —, e os olhos dela pareciam capturar a própria luz do fim da tarde.
Sem maquiagem, sem adornos, e ainda assim mais linda do que qualquer pintura que um artista ousasse imaginar.
Naquele instante, ele a amou com uma intensidade quase dolorosa.
E a odiou também.
Odiou sua leveza, sua alegria genuína, a forma como ela parecia encontrar sentido nas pequenas coisas que para ele não significavam nada.
Odiou o fato de que ela era tudo o que ele gostaria de ser — inteiro, luminoso, livre —, e ele, um homem moldado por ambição e vaidade.
Amava-a e odiava-a com a mesma força.
E se colocasse esses dois sentimentos em uma balança, não saberia dizer qual deles pesaria mais.
Silvia o chamava de volta à realidade, com sua voz doce e ensaiada:
— Cássio, está tudo bem? — perguntou, inclinando a cabeça, os olhos cheios de falsa preocupação.
Ele sorriu, automático.
— Claro, só estava... pensando em algumas coisas do trabalho.
Conversou por mais algum tempo, tentando se concentrar nas palavras e nos sorrisos educados que restavam, mas cada frase soava como um eco distante.
O riso dos outros parecia atravessá-lo sem deixá-lo parte de nada.
Quando os convidados começaram a se despedir, sentiu um alívio estranho — como quem finalmente respira depois de muito tempo submerso.
Estava cansado. Cansado de encenar, de sustentar um papel que já não sabia onde terminava e onde ele começava.
Diante da porta do carro, Silvia apareceu ao seu lado, os olhos úmidos de expectativa, o mesmo olhar de uma criança quando quer alguma coisa.
— Você vai me levar, não é? — disse em tom meloso, apoiando a mão em seu braço.
Ele olhou para ela por um instante.
O vestido dourado ainda cintilava sob a luz fria do estacionamento, mas o brilho não lhe causava mais tanto efeito.
Por um segundo, viu apenas a artificialidade de tudo aquilo — da cor, do sorriso, da relação.
Tudo parecia plastificado.

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