O dia seguinte amanheceu silencioso.
O sol atravessava as frestas da cortina, desenhando traços de luz e sombra no chão — um quadro quase sereno, se não fosse o peso invisível que pairava no ar.
Helena acordou antes do despertador, como de costume. Por alguns instantes, ficou apenas observando o teto, deixando que a lembrança da noite anterior se infiltrasse lentamente, como tinta dissolvendo-se na água.
Virou o rosto. Cássio dormia ao seu lado.
Ela o observou por um tempo, em silêncio, como quem contempla um quadro antigo — belo, mas já sem a mesma cor.
Os cabelos, um pouco desalinhados, caíam sobre a testa; o queixo, firme sob a luz tênue da manhã, era delineado pela sombra suave da barba, traçando uma linha que antes a convidava ao toque.
Por anos, aquele rosto fora seu abrigo, o lar onde repousavam suas certezas.
Agora, parecia o retrato de um estranho.
Talvez ainda houvesse amor — ou o eco distante de algo que já foi.
Ou, quem sabe, o que ela amara de verdade tivesse sido apenas a imagem que criou dele…
Levantou-se devagar, cuidando para não o acordar.
Enquanto preparava o café, ouviu os passos de Cássio vindo do quarto.
Ele surgiu com a mesma expressão de sempre, tentando vestir a normalidade como quem põe um terno amarrotado.
— Dormiu bem? — perguntou ele com um sorriso ensaiado.
Helena serviu-lhe uma xícara sem erguer os olhos, e fez um leve aceno com a cabeça.
Ele hesitou, desconfortável.
Ela nem sequer o olhou.
— Sobre ontem... — começou, tentando medir as palavras.
— Ontem já passou, Cássio. — interrompeu suavemente, sem aspereza. — Não há por que voltarmos àquilo.
A naturalidade dela o desconcertou.
Ele esperava resistência, lágrimas, drama — qualquer coisa que o fizesse sentir no controle novamente.
Aquela mulher diante dele parecia outra, não sabia como lidar com ela.
Mas ela apenas continuava ali, serena, inalcançável.
Cássio tentou decifrá-la, confuso.
“Se é assim que ela quer chamar minha atenção”, pensou, “está conseguindo.”
Soltou um bufo curto, tentando disfarçar o incômodo.
Foi então que o celular vibrou sobre o balcão.
Ambos olharam ao mesmo tempo.
O nome de Silvia piscava, luminoso na tela.
Por um breve instante, o olhar de Helena encontrou o dele.
Nada acusador, nada escandaloso.
— Não vai atender? — perguntou com um leve arquejo no canto dos lábios, a voz doce, mas cortante como vidro fino.
Cássio engoliu em seco. Pegou o celular com um gesto rápido, mantendo a voz firme ao dizer:
— Preciso ir.
— Claro. — respondeu ela, voltando a mexer o café como se nada tivesse acontecido. — Imagino que o trabalho não possa esperar.
Ele não respondeu, apenas saiu apressado.
Helena não o observou sair — apenas ouviu o som seco da porta se fechando atrás dele.
Mesmo decidida, algo dentro dela se contorceu. Um incômodo, quase físico.
Não por amor — mas por costume, talvez.
Por tudo o que ela havia sustentado sozinha durante tanto tempo.
Mas, enfim, ela respirou fundo. Precisava deixar ir.
Terminou o café lentamente, saboreando o gosto amargo que já não vinha apenas da bebida. Depois, levantou-se e foi se arrumar.
Escolheu uma calça pantalona de linho cor palha que marcava a cintura com elegância e caía fluida até os pés. A blusa branca, de algodão leve e mangas transpassadas com detalhes em renda, parecia feita para dias como aquele — simples e bonita.
Nos pés, uma sapatilha caramelo; nada chamativo, apenas confortável.
Por fim, prendeu metade do cabelo, deixando que os cachos se sobrepusessem em ondas macias.
Diante do espelho, sentiu-se bem — não só com as roupas, mas com a mulher que as vestia.



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