ELIZABETH WINTER
— Mãe, pelo amor de Deus, eu estou bem. Juro que não estou sozinha.
Eu estava mentindo. Descaradamente.
Eu estava gloriosamente, maravilhosamente sozinha, com o sol da Califórnia batendo no meu rosto através do vidro do táxi, a quilômetros de distância do ar mofado e pesado que tinha se instalado na mansão Winter.
— Elizabeth, seu pai está... preocupado. — A voz de minha mãe, Elaine chiou pelo telefone, cheia daquela ansiedade materna que me dava nos nervos, principalmente quando ela me chamava de Elizabeth.
— Preocupado? — bufei, revirando os olhos tão forte que quase pude ver meu cérebro. — Ele está preocupado? Engraçado, ele não parecia nem um pouco preocupado quando estava tratando a Stella e os meninos como se fossem lixo.
— Lizzy, por favor, não vamos falar disso agora...
— Não, vamos sim. O clima em casa está insuportável. Papai está agindo como um tirano do século dezenove, gritando com a coitada da Stella, chamando os gêmeos... — respirei fundo, a raiva borbulhando. — Ele os chamou de bastardos, mãe. Na cara dela. E quando Damian souber? Eu que não quero estar aí quando esses dois se enfrentarem.
Eu vivo por uma regra simples: a vida é curta demais para ser infeliz. E aquela casa tinha se tornado a definição de infelicidade. Então, eu fiz o que qualquer pessoa sã faria.
Eu fugi.
Peguei meu passaporte, meu cartão de crédito ilimitado, e reservei o primeiro voo que encontrei. São Francisco pareceu uma boa escolha.
— Eu só preciso de um tempo, mãe. Juro. Estou com a... — pensei rápido — ...com a Stephanie e a Jessica. Lembra delas? Da faculdade?
— Eu não me lembro de nenhuma Stephanie ou Jessica.
— Elas eram quietas. — menti. — Olha, mãe, estou chegando no hotel. Tenho que desligar. Eu te ligo amanhã. Eu estou bem. Eu estou segura. E, o mais importante, estou sã. Beijo!
Desliguei antes que ela pudesse protestar.
A verdade é que eu não precisava de ninguém. Eu sou Lizzy Winter. Eu faço amigos como quem troca de roupa. Eu poderia estar em Tóquio, Milão ou, neste caso, São Francisco, e em vinte minutos eu teria um plano para a noite.
O táxi parou em frente ao "The Clift", um hotel chique e moderno.. O porteiro sorriu para mim.
— Boa tarde, senhorita.
— Boa tarde. — sorri, entregando minha única mala, uma Rimowa de alumínio, para o carregador.
O check-in foi rápido. A suíte era exatamente como eu gostava: janelas grandes, uma cama que parecia uma nuvem e um banheiro maior que o meu primeiro apartamento em Paris. Joguei minha bolsa na cama. O silêncio era glorioso. Sem gritos. Sem portas batendo. Sem a tensão pesada de um drama que não era meu.
Tirei minhas botas, me joguei na cama e olhei para o teto. Eu poderia dormir por uma semana.
...Ou eu poderia causar um pouco de confusão.
O tédio era meu inimigo mortal.
Peguei meu celular, ignorando as três mensagens de texto da minha mãe que já tinham chegado. Abri minha lista de contatos, uma coleção global de pessoas interessantes, e rolei até o "M".
Marissa (SF).
Marissa era uma herdeira de petróleo que eu conheci em um iate em Mônaco e que tinha uma queda por bartenders tatuados e decisões ruins. Minha alma gêmea platônica.
Eu: Adivinha quem tá na cidade e precisa de um drink?
A resposta foi quase instantânea.
Marissa: SUA LOUCA! Onde você está?
Eu: Clift. Acabei de chegar.
Marissa: Ótimo. Estou em um almoço chato em Sausalito. Me encontra na 'Trick Dog' às sete?
Eu: Fechado. Beijos.
Plano feito. Sete da noite. Isso me dava... seis horas. Troquei minha blusa de seda amassada por uma camiseta branca de algodão, retoquei o gloss, soltei meu cabelo castanho claro e peguei minha jaqueta de couro preta.
Chamei um táxi pelo aplicativo. Enquanto esperava no lobby luxuoso, decidi que iria apenas... andar. Talvez visitar o Pier 39, rir dos leões marinhos, ser uma turista clichê. Por que não?
O aplicativo apitou. "Seu motorista está chegando".
Caminhei com a cabeça já cheia de possibilidades e um sorriso genuíno no rosto.
Empurrei a porta giratória e esbarrei em algo. Ou melhor, em alguém.
Era como bater em uma parede. Uma parede alta, muito sólida e vestida com uma camisa henley cinza que parecia inacreditavelmente macia.
Meu celular voou da minha mão, quicando no tapete felpudo do lobby.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!