SOPHIE PÓSITRON
O bip constante do monitor cardíaco já estava me irritando. O quarto particular era silencioso, frio, com aquele cheiro de antisséptico que parecia grudar nas paredes. Eu odiava hospitais, mas odiava ainda mais a sensação de impotência que se agarrava a mim como uma sombra desde a noite do tiro.
A tela do meu celular vibrou sobre a mesa ao lado da cama. Peguei-o depressa, já sabendo de quem era a mensagem. O segurança que meu pai colocou para vigiar cada passo de Damian desde que ele começou a me evitar.
"Ele foi até a casa da mulher. Levou o garoto com ele."
O coração disparou e, por um segundo, pensei que o bip do monitor fosse aumentar junto.
— Não… não, não, não. — murmurei, sentindo o ar sumir. — Ele não faria isso comigo.
Mas ele fez. Estava lá. Com ela. E pior: com o bastardo do Danian junto.
O grito escapou da minha garganta antes que eu pudesse conter.
— MALDITO! — joguei o celular contra a parede, o impacto ecoando no quarto. — COMO ELE OUSA?
A porta se abriu num solavanco e minha mãe entrou, apressada.
— Sophie! — correu até a cama. — O que foi, querida?
— O que foi?! — eu ri, mas foi um riso descontrolado, quase histérico. — Damian está na casa dela! Ele levou o Danian pra lá e agora… agora deve estar dormindo na cama dela, é isso o que foi!
Minha mãe suspirou, puxando a cadeira para perto da minha cama. Sentou-se com aquele ar de falsa calma que sempre usava quando queria controlar uma situação.
— Sophie, querida, você precisa se acalmar. Está fraca, acabou de sair de uma cirurgia.
— Fraca?! — gritei, batendo a mão no colchão. — Eu levei um tiro, mãe! Um maldito tiro! Por quê? Porque segui o SEU plano!
Ela não piscou.
— Foi necessário. Precisávamos mostrar a Damian que ele podia perder você.
— E o que aconteceu, hein?! — minha voz falhou, as lágrimas queimando meus olhos. — Eu me feri, e ele… ele nem se importou! Ao contrário, ele aproveitou que não estou no caminho e foi para o lado dela de vez. ISSO É TUDO CULPA SUA!
A calma no rosto dela se quebrou por um instante, apenas para ser substituída por dureza.
— Com seu pai funcionou. — disse, fria. — Quando ele estava obcecado por aquela mulherzinha, eu usei a mesma estratégia. Fui hospitalizada, fiz ele acreditar que me perderia, e o resultado foi simples: ele largou a amante.
— Mas não funcionou com o Damian! — bati o punho na lateral da cama, ignorando a dor que percorreu meu braço. — Não, com ele não funcionou, mãe!
Ela me encarou em silêncio por alguns segundos.
— Então é simples. — respondeu, por fim. — Ele não sente nada por você.
As palavras bateram em mim como um soco no estômago.
— Como pode dizer isso assim? — sussurrei, com a voz embargada. — Eu sou sua filha, mãe.
— Justamente por isso. — ela ajeitou os punhos do casaco. — Você precisa encarar a realidade. Aquele Winter imprestável não ama ninguém além de si mesmo e da maldita empresa que herdou.
Ergui o olhar para ela, com os olhos ardendo de lágrimas e raiva.
— Solta uma notícia. — ordenei.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Qual notícia, querida?
— Qualquer coisa que derrube as ações. — respondi sem pensar. — Inventem que a Winter perdeu um contrato bilionário com o governo, que está envolvida em fraude fiscal, que os investidores estão retirando fundos… qualquer coisa. Eu não me importo!
Um sorriso lento se formou nos lábios dela.
— Isso causaria uma queda imediata.
— ÓTIMO! — gritei, quase sem voz. — Se ele não se ocupa comigo, vai se ocupar com o verdadeiro amor da vida dele: aquela maldita empresa. Quero ver se, quando ela despencar, ele ainda vai ter tempo para brincar de família feliz com a ex-secretáriazinha e os bastardos dela!
Minha mãe inclinou a cabeça, satisfeita.
— Como quiser, querida.
Eu me joguei de volta na cama, com o peito subindo e descendo rápido. As lágrimas caíam, mas já não eram de dor, eram de ódio.
Se Damian não podia me amar, eu faria questão de destruir tudo o que ele amava.
E quando ele viesse, desesperado, implorar por ajuda, eu estaria aqui, esperando.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!