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Querido chefe, os gêmeos não são teus! romance Capítulo 8

DAMIAN WINTER

O barulho dos talheres contra a porcelana era mais incômodo do que qualquer reunião de diretoria. Minha mãe mandou bordar o símbolo da empresa em cada guardanapo de linho. O mesmo símbolo estava estampado nos pratos, nos copos e até nos malditos porta-guardanapos. Estávamos cercados pela nossa herança. Literalmente.

O jantar semanal na casa dos meus pais era um ritual, quase uma cerimônia. Todos estavam ali. Meu pai, William Winter, (ou WW como costumo chamar quando ele me incomoda) com seu terno Armani mesmo dentro de casa, como se sua autoridade dependesse da gravata escolhida no dia. Minha mãe, Elaine, sorridente até demais servia os pratos como se ainda vivêssemos no século passado. E minha irmã mais nova, Lizzy, ela é... bom, acho que a melhor forma de descrevê-la é que é o oposto de mim. Alegre, irresponsável, aventureira e rebelde.

— Você está comendo tão pouco, Damian. — observou minha mãe. — Está magro. Andando demais com essa sua rotina insana.

— Você sempre diz a mesma coisa. Estou bem. — respondi, sem levantar os olhos do prato.

— Claro que está. — minha irmã sorriu com sarcasmo. — Só trabalha vinte horas por dia, tem ações em três continentes e nenhum tempo pra viver.

Ignorei. Era o que eu sempre fazia quando Lizzy tentava parecer espirituosa. Mas era para o irmão sem “nenhum tempo pra viver” que ela corria quando se metia em problemas que não queria revelar para os nossos pais. Ela já tem 20 anos, mas não parece que vai crescer tão cedo.

— O que queremos saber... — começou meu pai, apoiando os cotovelos na mesa. — é quando vai finalmente trazer uma mulher decente para cá.

Lá estava. O velho assunto. O tema que voltava como um relógio Aether Clock OC 020 em cada reunião de família. A cobrança pelo herdeiro.

— William… — minha mãe tentou suavizar. — Não é assim que se começa uma conversa.

— E como se começa, então? — ele rebateu. — Ele tem quase trinta anos. Uma empresa bilionária para comandar. E nenhum plano de formar família. Você quer que o legado Winter morra com ele?

— Não vou discutir isso de novo. — falei, seco, deixando os talheres no prato com mais força do que o necessário.

— Uau, ele nem dá uma resposta diferente. — Lizzy interferiu, ainda com o mesmo tom debochado. — Tem um harém secreto no porão do prédio, irmãozinho? Ou só não consegue se apegar a ninguém que não seja seu notebook?

— Elizabeth. — minha mãe a repreendeu com um olhar.

— O que foi? Só estou tentando animar o jantar. — Lizzy deu de ombros e mergulhou a colher no vinho da taça, como se mexesse um coquetel. Apesar de toda a etiqueta que recebeu ela parecia agir dessa forma incivilazada sempre que tinha chance, para irritar nossa mãe. E conseguia pois nesse momento estava recebendo um olhar mortal.

Levantei a taça de vinho e a esvaziei em dois goles, sem apreciar o sabor. Provavelmente alguma safra caríssima escolhida a dedo por meu pai.

— E aquela garota com quem você apareceu no evento da Brixley? — minha mãe tentou, com um falso entusiasmo. — Como era mesmo o nome dela?

— Não lembro. — respondi.

— Claro que não lembra. — murmurou Lizzy. — Elas só duram uma noite, não é? Não dá tempo de gravar nomes.

Ela estava tentando tirar uma reação minha. Como sempre. E funcionava. Meu olhar cortou o dela mas continuei em silêncio.

— Precisamos conversar sobre o futuro, Damian. — meu pai retomou com sua voz grave. — O conselho já comentou, discretamente. O mercado observa. Você não pode viver como um jovem solteiro eternamente. Precisa mostrar estabilidade.

— Eu sou estável. Financeiramente, em resultados e em decisões.

— Mas não emocionalmente. — rebateu ele. — Um CEO que muda de mulher como muda de gravata transmite a imagem errada. E, por mais que você despreze essas formalidades, elas importam para investidores. Um casamento sólido inspira confiança. Um herdeiro inspira continuidade.

E essa conversa está me inspirando a ir embora mais cedo.

— Ainda sou jovem demais pra casar. — afirmei, cruzei os braços e apoiei as costas na cadeira, deixando claro que não me intimidava com a pressão.

— Will tinha vinte e cinco quando nos casamos. — pontuou minha mãe, ajeitando os talheres como se aquilo fosse uma resposta convincente e definitiva.

— Eu quando eu disse que vocês não eram jovens? — retruquei, seco.

8 - Inspirado a ir embora 1

8 - Inspirado a ir embora 2

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