STELLA HARPER
O som da chave girando na fechadura pareceu alto demais no silêncio do apartamento. Empurrei a porta com o ombro, as sacolas com a marmita do almoço intocada ainda penduradas na mão, e fechei com o pé. As paredes brancas e a mobília barata me acolheram com a mesma indiferença de sempre. Tudo estava do mesmo jeito, exceto por mim.
Eu me sentia sugada. Como se houvesse um cansaço espesso que grudava no corpo, na cabeça, nos ombros. Eu só queria um lugar para cair.
— Caramba, Stella, você parece um zumbi. — A voz de Leah veio da sala.
Ela estava sentada no sofá com as pernas cruzadas, vestindo um moletom rosa claro, com uma caneca de chá nas mãos. Seus cabelos cacheados, tingidos de um ruivo vibrante, estavam presos no alto da cabeça com uma presilha torta, e seu rosto, sempre com sardas salpicadas pelo nariz e maçãs do rosto, se contorceu em preocupação quando me viu.
Joguei a bolsa no chão, larguei as sacolas na mesinha de centro e fui direto até ela. Me joguei no sofá como uma pedra, apoiando a cabeça em seu colo. Leah me olhou por alguns segundos em silêncio, permitindo que os dedos passeassem pelos meus cabelos.
— Ok, isso já virou rotina. E antes que você diga que está tudo bem, vou dizer o óbvio: não está. — Sua voz estava calma, mas prestes a se partir. — Você chega assim toda noite, há dias. Mal come. Mal fala. Parece que está carregando o mundo nas costas. Então agora você vai me contar, Stella. Sem me poupar. O que está acontecendo?
Fechei os olhos. Só o toque dela já fazia meu peito doer de outro jeito. Mais macio. Era como se uma parte minha ainda estivesse viva ali, tentando resistir. A outra estava sendo soterrada em silêncio.
— Meu chefe sabe que falsifiquei o diploma. — Comecei. — E sabe das dívidas. As do meu pai, principalmente.
Ela continuou calada.
— Damian Winter... ele... me obrigou a assinar um contrato. Um contrato sexual. Se eu não fizesse, ele entregaria minha falsificação às autoridades. Eu perderia tudo. E provavelmente... seria presa.
Leah ficou em silêncio. Mas não de espanto. Era um silêncio de assimilação. Seus dedos continuaram nos meus cabelos, devagar, como se tocasse a cabeça de uma criança assustada.
— Ele te obrigou? — Ela perguntou, com a voz baixa.
— Me coagiu. Com argumentos mesquinhos, chantagem e sua lógica fria. Ele está me cercando.
— Você... já...? — Leah hesitou.
— Não. — Respondi de imediato, sentindo o estômago revirar. — Ainda estou tentando resistir. Mas ele deixou claro hoje... Tenho uma semana pra “estar pronta”. Se não estiver... ele vai decidir o rumo que isso vai tomar.
Ela me fez sentar e pegou o contrato para ler. Quando terminou, disse, com um suspiro:
— Você não está se vendendo. Ele te encurralou, Stella. Isso é sobrevivência. E essa pode ser sua única chance de ganhar tempo.
— Ganhar tempo pra quê, Leah? — perguntei, encarando o teto.
— Pra sair disso viva, inteira e com um plano. Ele quer seu corpo, ok. Mas e se você puder usar isso pra se fortalecer? Sair das dívidas, se proteger, respirar?
Fiquei em silêncio. Suas palavras continuavam me corroendo mesmo depois que ela foi dormir. Eu sabia que ela estava certa.
No dia seguinte, ainda mergulhada no torpor daquela conversa, sentei à mesa da copa da empresa com minha colega, Valeria. Ela era do financeiro, sempre bem arrumada, simpática demais, curiosa demais.
— Você ouviu que o senhor Winter vai pra Londres na semana que vem? — ela perguntou enquanto comia seu sanduíche fitness. — Dizem que ele vai fechar um contrato milionário com investidores do setor farmacêutico. Que homem.
Revirei os olhos.
— Ele é um pesadelo com terno. Nada nele é tão interessante assim.
— Você tá brincando? — Valeria riu alto. — Eu venderia a alma por uma noite com ele. Literalmente. Já pensou? Aquele olhar gelado, aquela boca, aquelas mãos... Aposto que ele é do tipo que domina a situação, sabe?
— Ah, ele domina mesmo — murmurei, baixo demais para ela ouvir com clareza.
— O quê?
— Sim. Achei que já estivesse pronta. — A frase foi dita com uma entonação que só eu entederia. — Ou prefere que eu pergunte a outra pessoa? Acho que a Valeria poderia me ajudar com isso, não poderia Valeria?
Senti o sangue drenar do meu rosto.
Valeria riu, sem entender o subtexto.
— Como eu poderia negar...
— Eu digo. — Cortei, antes que ela dissesse mais alguma coisa. — Em menos de 24 horas o senhor saberá.
Damian assentiu, satisfeito, e se afastou sem mais uma palavra.
O restante do dia foi um borrão. Cada minuto parecia uma contagem regressiva para o momento em que eu estaria diante dele, de novo, sem ter mais para onde fugir. À noite, voltei para casa como um robô.
Leah ainda estava acordada. Quando me viu entrar, ergueu as sobrancelhas.
— Você falou com ele?
— Ainda não. — larguei a bolsa no sofá. — Mas ele ouviu uma colega dizer que queria dormir com ele. E usou isso como ameaça. Insinuando que vai fazer a proposta para ela, por isso amanhã eu vou dizer que concordo.
— Você está fazendo a melhor escolha pra você.
Assenti com um leve sorriso.
— Então é isso... — murmurei. — A vadia de luxo dele estará oficialmente em serviço

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!