DAMIAN WINTER
A madrugada parecia não ter fim. O prédio da Winter Enterprises estava mergulhado em silêncio, exceto pelas salas iluminadas do 24º andar, onde minha equipe se espalhava entre computadores, pilhas de documentos e telas que piscavam em vermelho a cada minuto. O ar condicionado já não dava conta de mascarar o cheiro de café requentado, e os olhos de todos estavam cansados, mas ninguém ousaria parar.
Eu também não.
— Revisem os balanços de 2021 mais uma vez. — ordenei, a voz firme, mesmo que minha garganta estivesse seca. — Quero cada detalhe confrontado com os relatórios da Receita. Se alguém ousar questionar, nós vamos esmagar com provas.
Dois analistas assentiram rapidamente e voltaram para os papéis. O diretor jurídico, entrou com um calhamaço de pastas, a gravata frouxa e as olheiras fundas.
— Damian, conseguimos um parecer favorável da auditoria externa. Eles garantem que não há inconsistência fiscal nos últimos cinco anos. — Ele pousou as pastas sobre a mesa com um baque. — Se apresentarmos isso junto às notas fiscais e declarações, ninguém poderá sustentar a acusação.
Peguei os documentos e folheei em silêncio. Estava tudo ali: assinaturas, carimbos, registros digitais. A sensação de alívio foi imediata, mas não deixei transparecer. Estar tudo em ordem era obrigação da empresa.
— Bom. — murmurei. — Prepare uma cópia digital para enviar às autoridades pela manhã. Nada de vazamentos antes disso.
Ele assentiu e saiu apressado.
Do outro lado da mesa, Raquel, responsável pela comunicação, digitava sem parar.
— O pronunciamento está pronto, mas precisamos alinhar o tom. — disse, sem tirar os olhos da tela. — Se atacarmos o jornal, pode soar como desespero. Se formos brandos, os investidores vão achar que é verdade.
Aproximei-me, li as primeiras linhas e deletei metade com um clique.
— Sem rodeios. — falei. — Vamos mostrar as provas, expor a mentira e deixar claro que quem quer que tenha vazado isso vai pagar caro. Não vou implorar confiança, nossas provas bastam.
Ela engoliu em seco e continuou digitando.
As horas seguintes foram um turbilhão. Equipes indo e vindo, advogados redigindo petições emergenciais, contadores cavando relatórios antigos, técnicos de TI rastreando possíveis pontos de vazamento. Eu passava de um lado a outro, conferindo, exigindo e corrigindo. Não havia espaço para falhas.
Quando finalmente o relógio marcou seis da manhã, tínhamos um dossiê de quase mil páginas, além de um pronunciamento pronto para a imprensa. A sala estava mergulhada em exaustão e ninguém queria comemorar.
— Obrigado a todos. — disse, erguendo os olhos para minha equipe. — Vocês entregaram em uma noite o que levaria meses. Agora deixem o resto comigo.
[...]
Às nove, estávamos em frente ao prédio da empresa, onde jornalistas se aglomeravam como abutres. Câmeras, microfones, flashes. O caos de sempre, mas multiplicado pelo escândalo.
Subi no púlpito improvisado, os refletores iluminando meu rosto. O burburinho cessou aos poucos.
— Sou Damian Winter. — comecei, projetando-me sobre a multidão. — E estou aqui para esclarecer a verdade.
Mostrei uma pasta, levantando-a para as câmeras.
— Nas últimas vinte e quatro horas, fomos acusados de fraude fiscal. A Winter Enterprises existe há quase trinta anos, e nunca precisou de mentiras para crescer. As provas que tenho aqui, relatórios, auditorias externas, declarações fiscais, desmentem cada linha dessa acusação.
Um jornalista ergueu a mão e dei permissão para que falasse.
— Mas a matéria cita documentos internos, senhor Winter. Como explica?
— Simples. — respondi, sem hesitar. — Ou eles estavam blefando ou são documentos forjados. Quem quer que tenha plantado essa mentira não esperava que estivéssemos tão preparados. Mas estávamos.
O murmúrio cresceu entre os repórteres.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!