POV Lianna Aslan
O som do monitor cardíaco era estável. A respiração de Camille, controlada. O sangue nas minhas luvas, limpo.
Cinco horas de cirurgia, e o resultado estava diante de mim: vida.
Enquanto eu removia o gorro e as luvas, a equipe me olhava com uma mistura de alívio e reverência. Já estavam acostumados ao improvável, mas, ainda assim, o impossível sempre tinha gosto de milagre.
— Excelente trabalho, doutora. — murmurou o anestesista. — Achei que a perdíamos.
— Eu também. — respondi, fria. — Mas não hoje.
Deixei a sala e tirei o avental cirúrgico, juntamente com as outras peças sujas de sangue. Não olhei para trás. Não me dei o luxo de sentir nada. O som dos meus saltos no corredor era o único lembrete de que eu ainda estava viva.
Até que o inevitável aconteceu. A voz dele.
— Lianna.
Meu corpo congelou por um segundo. Mas eu não parei.
— Lianna, espera. — ele insistiu, aproximando-se.
Parei. Devagar. Respirei. E me virei. Zayden Cross estava a poucos passos de mim, o mesmo olhar arrogante que eu conhecia, só que agora havia algo mais. Exaustão. Raiva. Orgulho ferido.
— Senhor Cross. — corrigi, seca. — A paciente está fora de perigo. Fiz o que vim fazer.
Ele riu de leve, aquele riso abafado que sempre precedia o caos.
— Então é “senhor Cross” agora? Depois de tudo?
— Depois de tudo, principalmente.
Por um instante, ele me observou em silêncio. O olhar viajou pelo meu rosto, pelo jaleco, pelos crachás pendurados.
— Mudou.
— Não tanto quanto você pensa. — respondi. — Só aprendi a sobreviver.
Ele deu um passo à frente.
— Por que queria tanto o divórcio, Lianna? — a voz saiu baixa, venenosa. — É por alguém?
Aquilo me fez rir, mesmo sem vontade.
— Você acha mesmo que o mundo gira em torno da sua vaidade?
— Me responda. — insistiu, com o queixo erguido. — Tem outro homem?
— Não. — disse, encarando-o com calma. — Mas se tivesse, não seria adultério. Seria libertação.
Ele cerrou o maxilar.
— Você fala como se o passado não tivesse existido.
— O passado morreu no dia em que você me matou por dentro.
O silêncio entre nós se tornou insuportável. Zayden deu mais um passo. Eu não recuei.
— Você me odeia tanto assim? — perguntou.
— Eu não desperdiço ódio com fantasmas.
Ele sorriu, frio, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse o perfume dele — o mesmo de anos atrás.
— Cuidado, Lianna. — sussurrou. — Essa indiferença pode custar caro.
Olhei para ele, firme.
— Não existe nada que você ainda possa tirar de mim.
— O divórcio. — provocou. — Prometi assinar, lembra? Talvez eu tenha mudado de ideia.
Respirei fundo, controlando o impulso de reagir.
— É claro que mudou. Você nunca cumpre promessas.
— Não quando percebo que ainda há algo para resolver. — ele respondeu, com um meio sorriso. — E nós ainda temos pendências, Lianna.
— E como era o nome dele, mesmo? — perguntei, forçando um sorriso.
— Zayden… Zayden alguma coisa...
O outro confirmou, animado. — Isso! Eu vi até uma foto uma vez. No antigo arquivo do hospital. Eles pareciam felizes.
Ri baixo. Devagar.
— Felizes… — repeti, tirando o celular do bolso.
Abri uma foto antiga. Eu e Lianna. Antes de tudo ruir. O braço dela em volta da minha cintura. O sorriso que ela nunca mais repetiu.
Estendi o celular para eles.
— É essa foto?
Eles olharam, surpresos.
— S-sim! Essa mesmo!
— Interessante. — aproximei o rosto, deixando o sorriso crescer, frio. — Porque o tal “marido morto” está bem vivo.
Os dois empalideceram. Um deles tentou balbuciar algo.
— Senhor… então o senhor é—
— Zayden Cross. — interrompi, seco. — E não, eu não estou morto.
Deixei o celular cair sobre o balcão e me afastei, sentindo a raiva ferver sob a pele.
Lianna havia me matado, pelo menos no papel, na narrativa, no mundo que ela construiu sem mim.
Ela apagou meu nome. E agora, andava por aí como uma viúva admirada. Enquanto eu, o “fantasma”, assistia o mundo aplaudir a mulher que me enterrou viva.
Sorri sozinho, o som oco no corredor vazio.
— Tudo bem, Lianna. — murmurei. — Você me enterrou… mas esqueceu que fantasmas sempre voltam pra assombrar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!