POV Lianna Aslan
O ar do estacionamento estava frio. O céu estava escuro e estava nublado.
Depois de horas dentro daquelas paredes brancas, cada passo até o carro era um lembrete do quanto eu queria distância dali e dele.
Meu corpo ainda tremia levemente pela descarga de adrenalina da cirurgia. Mas não era o bisturi que me deixava assim. Era o fato de ter ficado a poucos metros de Zayden, o homem que me ensinou o significado da palavra ruína.
Segurei o crachá, respirei fundo e destravei o carro. Estava prestes a entrar quando ouvi a voz que menos esperava naquele momento:
— Li!
Fechei os olhos, exasperada, antes de virar.
— Valentina.
Ela vinha apressada, com o jaleco aberto, cabelo preso de qualquer jeito e o mesmo sorriso debochado que carregava desde os tempos de residência. Valentina Meyer, minha melhor amiga, ou talvez, o lembrete vivo de que eu ainda era humana.
— Então é verdade! — exclamou, apoiando-se na porta do carro. — A doutora gélida operou a atual do ex!
— Val...
— Ai, por favor, não começa com o discurso de “ética profissional”. Eu quero fofoca. Com emoção. — Ela cruzou os braços, animada. — Você olhou na cara dele?
— Infelizmente.
Ela riu alto, sem disfarçar.
— E? Ele está acabado ou continua com aquele ar de “eu sou gostosão dono do mundo”?
— Continua. Só que agora parece o dono de um mundo em ruínas.
— Hm. Poético. — Ela sorriu, satisfeita. — Aposto que tentou te provocar.
— Claro. Zayden não respira sem transformar tudo em disputa.
Valentina suspirou teatralmente.
— E você, minha cara Dra. Aslan, continua fingindo que é feita de mármore. Mas eu te conheço.
— Ah, conhece, é?
— Conheço. — Ela se apoiou mais perto. — Aposto que, no fundo, teu coração deu um pulinho.
Suspirei, segurando a chave.
— Meu coração só pulou quando vi o eletrocardiograma da paciente.
Ela gargalhou, batendo palmas.
— Que mentira descarada!
Sorri de canto. Valentina tinha esse dom irritante de me fazer rir mesmo quando tudo dentro de mim gritava o contrário.
— Sabe, Li... — ela disse, o tom suavizando —, não precisa se culpar por ter tremido. Ele foi teu marido.
— Foi. Passado. Enterrado.
— Enterrado mesmo, né? — Ela me olhou com malícia. — Ouvi uns comentários pelos corredores… que teu “falecido” ressuscitou.
Revirei os olhos.
— Deixa eu adivinhar. O departamento inteiro acha que eu sou uma viúva misteriosa?
— Exatamente. — Ela sorriu. — A lenda da Dra. Aslan: salvadora de vidas, viúva trágica e imune ao amor.
— Imune ao amor, sim. Viúva, não. — fechei a porta do carro e recostei. — E, sinceramente, prefiro que pensem assim. É mais fácil do que explicar que casei com um homem que destruiu metade da minha alma e depois ainda teve coragem de aparecer como se nada tivesse acontecido.
Valentina ficou em silêncio por um segundo, me estudando.
— Você ainda ama ele?
Respirei fundo, cansada.
— Eu ainda lembro. E às vezes, lembrar dói mais do que amar.
Ela assentiu, e por um momento, a leveza sumiu.
— Ele conversou com você?
— Sim, claro, veio me provocar. Disse que não vai assinar o divórcio.
Valentina arqueou as sobrancelhas.
— O quê?! Depois de tudo isso?!
— Acha que Zayden desistiria do poder de me manter presa ao nome dele? — ri sem humor. — É a forma dele dizer: “Você nunca vai se livrar de mim.”
— Viram? Sintonia total.
— Valentina… — comecei, num aviso, mas ela me ignorou solenemente.
— Vocês dois deviam jantar. — declarou, triunfante. — E eu tô oficialmente me retirando antes que ela me bata.
Ela saiu rindo, me deixando sozinha com Adrian. Por um segundo, só o barulho distante do estacionamento nos envolvia.
— Desculpe pela minha amiga. — murmurei. — Ela tem a sutileza de uma granada.
— Tudo bem, gosto de gente sincera. — Adrian sorriu, com aquele tom sereno que desarma até o caos. — Mas confesso que ela não está completamente errada.
— Em quê, exatamente?
— Em dizer que você precisa respirar. — respondeu, tranquilo. — Todo mundo aqui te admira, Lianna. Mas… às vezes parece que você esquece que também é feita de carne e não só de propósito.
A frase me pegou de jeito. Pouca gente tinha coragem de falar comigo assim. Sem medo, sem bajulação. Só com verdade.
— Eu me viro bem. — disse, tentando manter o tom profissional.
— Eu sei. — Ele assentiu, estudando meu rosto por um segundo. — Mas se um dia cansar de se virar sozinha, eu sei cozinhar.
Ri de leve, balançando a cabeça.
— Isso foi uma cantada médica?
— Uma oferta terapêutica. — respondeu, divertido. — Sem contraindicações.
A forma leve como ele falava me fazia esquecer, por alguns segundos, o peso da minha própria história. E talvez por isso eu tenha demorado a perceber o olhar que se aproximava.
Adrian notou primeiro. Endireitou-se, olhando por cima do meu ombro.
— Amigo seu? — perguntou, sem entender.
Virei. E o frio no ar pareceu ganhar forma. Zayden vinha em nossa direção. Passos firmes. Olhar duro. O mesmo homem que jurou nunca mais cruzar meu caminho e que, claro, não cumpriu.
Suspirei, exasperada.
— Não. — respondi, seca. — Inimigo reincidente.
Adrian franziu o cenho, mas antes que eu dissesse qualquer coisa, Zayden já estava perto o bastante para o perfume caro dele me atingir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!