Entrar Via

Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe! romance Capítulo 15

POV Lianna

O despertador nem precisou tocar. Eu já estava desperta muito antes dele anunciar o início de mais um dia. A insônia decidiu que dormir é luxo, e minha mente não está autorizada a ter privilégios. O café fervia, e o aroma preencheu a cozinha com uma pretensão falsa de normalidade.

Normalidade… que palavra cruel.

Coloco duas fatias de pão na torradeira, separo frutas em potinhos idênticos, azul para Selin, amarelo para Selena. Dois uniformes dobrados na cadeira. As mochilas organizadas na noite anterior. Uma mãe pronta para lutar contra o mundo enquanto o mundo tenta derrubá-la.

— Mãe? — a voz sonolenta de Selena.

— Bom dia, meu amor. — Puxo-a para um abraço. Aquele abraço que me mantém viva. — Vai se arrumar, ok? Café está quase pronto.

Selin aparece logo atrás, o cabelo bagunçado como se tivesse travado guerra com os travesseiros.

Ele beija minha testa. Pequeno cavalheiro. Meu protetor mirim.

— Sonhou? — pergunto.

— Com dragões. — responde ele. — Eu venci.

Eu sorrio, sentindo o coração apertar. Que ironia: meu filho luta contra monstros imaginários enquanto eu sigo batalhando com os reais.

***

No carro, a rádio anuncia notícias da cidade. Algo sobre o hospital Saint Claire. Eu desligo na hora.

Não quero saber de nada que me lembre dele. Só que o destino tem uma obsessão doentia em zombar de mim.

Quando estaciono na escola, as crianças correm para seus amigos. Selin fica mais perto de Selena, sempre vigilante. É quase poético: ele nasceu cinco minutos antes e assumiu o papel de irmão mais velho com todas as forças.

Eu já estava virando para ir embora quando vejo as professoras cochichando na entrada. Elas me olham.

Se viram de volta. Sussurram.

Ok. Respira. Circuito de autopreservação ativado.

**

Quase meio-dia meu celular toca: Escola.

O coração cai no estômago.

— Dra. Aslan? Precisamos que venha até aqui. Selin se envolveu em uma… situação.

Situação. Essa é a palavra que usam quando querem dizer “sua vida está prestes a desmoronar um pouco mais”.

Quando chego à sala da coordenadora, a primeira coisa que vejo é o rosto furioso de Selin. Os punhos fechados. O lábio cortado.

Selena está atrás dele, com os olhos marejados.

— O que aconteceu? — pergunto, tentando manter a calma que não tenho.

A coordenadora suspira como se estivesse lidando com um caso de homicídio.

— Selin entrou em briga com três colegas da turma. Bateu neles.

— Três? — levanto a sobrancelha. — Ele está bem?

— Esse não é o foco. — ela responde.

Eu me ajoelho e olho nos olhos dele.

— Filho, fala para a mamãe. Por que você bateu nos meninos?

Ele respira fundo, firme.

— Eles chamaram a Selena de… de filha da amante. E disseram que você apareceu na TV… roubando o marido de outra mulher doente.

Selena solta um soluço engasgado. Eu sinto o chão rachar sob meus pés. Por um instante, tudo fica em silêncio. Um silêncio que grita.

Meu pequeno herói ergue o queixo.

— Eu disse que eles são uns idiotas. E aí eu empurrei um deles no chão. — Ele olha para as mãos, envergonhado. — E falhei o chute no segundo, mas o terceiro eu acertei.

Meu coração quer rir e chorar ao mesmo tempo. Eu me levanto devagar e me volto à coordenadora.

— Meu filho estava defendendo a irmã. E a mim.

— Violência nunca é justificável. — ela diz, automática.

— Sabe o que nunca é justificável? — Minha voz sai baixa, mas afiada. — Uma escola deixar que boatos cruéis sobre a mãe de duas crianças circulem entre alunos de sete anos. Onde está a supervisão?

Selin solta:

— O papai é mau?

Eu fecho os olhos por um segundo. A verdade machuca. Mas a mentira mata.

— O papai errou muito. — sussurro. — E às vezes, quando os adultos erram, os filhos acabam levando a culpa.

***

Peguei o celular e liguei.

— Dr. Navarro? — minha voz saiu fria. — Preciso reabrir o processo de divórcio.

— Boa noite, doutora. Quer que eu agende uma nova audiência?

— Não quero audiência. Quero resultado. O mais rápido possível.

— Entendido.

Antes de desligar, completei:

— E se o senhor receber qualquer interferência externa... bloqueie tudo. Bens, imóveis, o que for. Eu não estou disposta a ser refém do meu passado.

Encostei a cabeça no encosto da cadeira, deixando o peso do dia me atravessar.

Pela primeira vez em anos, não chorei.

A dor era velha conhecida.

Mas agora ela vinha acompanhada de algo novo: fúria.

Fúria por ver meus filhos virando alvo da sujeira que ele espalhou.

Fúria por perceber que, mesmo longe, Zayden ainda encontrava formas de sujar o que restou de mim.

Fechei o notebook, respirei fundo e sussurrei pra mim mesma:

— Tudo bem, Zayden. Você quer guerra? Então vai ter guerra.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!