POV Zayden Cross
Eu a vi antes de ela me ver. Lá estava Lianna, rindo. Rindo. Como se o inferno que me deixou pra trás nunca tivesse existido.
Do outro lado do estacionamento, observei enquanto ela e outra médica de cabelos negros conversavam, e depois aquele homem apareceu. Alto, postura perfeita, o tipo que carrega “bondade” como perfume. O tipo de homem que ela merecia e que eu nunca soube ser.
E ele a fez sorrir. Aquela maldita curva nos lábios dela que eu achava que tinha destruído. Segurei o volante com força, os nós dos dedos embranquecendo. O ciúme era uma doença antiga. E eu acabara de sofrer uma recaída grave.
— Então é assim, Lianna... — murmurei, amargo. — Me enterra vivo, finge que sou um fantasma, e ainda flerta no estacionamento?
A voz dela ecoava na memória: “Não há nada que você ainda possa tirar de mim.” Talvez não. Mas eu podia fazer o que fazia de melhor, transformar o que era paz em guerra.
Saí do carro e me aproximei. Devagar, o suficiente pra ela sentir minha presença antes de me ver.
Ela virou, e o olhar dela encontrou o meu. Nenhuma surpresa. Nenhum medo. Apenas aquela serenidade irritante.
— Senhor Cross. — disse, seca. — Vai começar a me seguir agora?
— Só estava passando. — menti. — Que coincidência interessante... você, seu novo amiguinho...
Adrian olhou pra mim, confuso, mas educado.
— Boa noite, senhor.
— Boa mesmo. — retruquei. — Ainda mais para quem parece ter encontrado companhia.
Lianna cruzou os braços, impaciente.
— Zayden, não começa.
— “Não começa”? Eu só vim agradecer à médica que salvou minha companheira. — dei um passo à frente.
— Ou devo dizer... agradecer a minha esposa?
Adrian olhou pra ela, surpreso.
— Esposa?
— Ex-esposa. — corrigiu ela, firme.
— Ainda não oficialmente. — completei, com um sorriso venenoso. — Ela gosta de dizer que o passado morreu, mas esquece que a certidão de casamento ainda respira.
Lianna estreitou os olhos.
— Você é patético.
— E você é previsível. — respondi. — Correndo pra outro homem quando precisa provar que me esqueceu.
O tapa verbal fez Adrian franzir o cenho.
— Acho que está ultrapassando limites, senhor.
— E você é o quê? O novo salvador da viúva Aslan?
— Zayden! — Lianna interveio, o tom cortante. — Basta.
Por um segundo, tudo congelou. Só o som distante dos carros cortava o ar.
Adrian respirou fundo, mantendo a postura.
— Lianna, eu te ligo amanhã pra revisar o caso da paciente.
— Claro. — respondeu, grata, sem tirar os olhos de mim.
Ele se afastou, e o silêncio que restou era denso, sufocante.
Lianna me encarou.
— Satisfeito?
Arqueei uma sobrancelha, surpreso.
— Famoso? Ela anda falando de mim, é?
— Só o suficiente para eu saber que você é exatamente o tipo de homem que ela devia manter bem longe. — respondeu, sem hesitar. — E olha que eu sou médica, sei reconhecer doença à primeira vista.
Soltei um riso curto, incrédulo.
— Engraçado. Você fala como se me conhecesse.
— Conheço o estrago que você deixou. — retrucou. — E antes que pense em aparecer no hospital de novo com esse seu teatrinho de possessividade, te aviso: Lianna não está mais sozinha.
— É mesmo? — inclinei a cabeça, divertido. — Vai ser você a babá dela agora?
Ela sorriu, mas o olhar era puro aço.
— Não. Mas eu sou quem vai te cortar em pedaços se você tentar machucá-la de novo. E, acredite, eu sei usar bisturi melhor do que você sabe manipular gente.
Ficamos frente a frente, o ar denso entre nós. O vento carregou o perfume de álcool hospitalar do jaleco dela e o cheiro amargo da minha raiva.
— Você devia cuidar das suas próprias feridas, doutora. — murmurei, mais baixo. — Porque as dela são cicatrizes que eu deixei.
Valentina deu um meio sorriso.
— Pois é. E cicatriz, ao contrário de ferida, não sangra mais.
Ela deu um passo para o lado, abrindo caminho, e concluiu:
— Vai embora, Sr. Cross. Antes que eu chame a segurança.
Passei por ela, o maxilar travado. Mas antes de entrar no carro, ouvi a voz dela atrás de mim, firme, cortante:
— E uma última coisa, Zayden. — virei o rosto, e ela sustentou meu olhar sem piscar. — Fantasmas só assustam quem ainda acredita neles. E Lianna, faz tempo, aprendeu a não acreditar mais em você.

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