POV Lianna
O café esfriava no console do carro enquanto eu revisava o relatório pós-operatório. Tentei focar nas palavras técnicas, nas porcentagens, nas notas frias que me lembravam que meu trabalho ainda era o único lugar em que tudo fazia sentido.
Mas o toque do celular quebrou o silêncio.
“A Doutora Viúva: quem é a mulher que fugiu da vida e do marido morto? Retorno triunfal de Lianna Aslan: heroína ou oportunista?"
Por um segundo, senti o sangue subir ao rosto. As mãos tremeram, mas não deixei a caneta cair. Respirei fundo, contei até três, como aprendi na terapia, e desliguei a tela. Não era hora de quebrar.
Abri a porta e saí do carro. O ar da manhã era frio, cortante. Entrei no hospital com a postura que aprendi a usar quando o mundo tenta me empurrar: reta, firme, quase arrogante.
Os corredores estavam diferentes. Olhares. Sussurros. O som abafado dos passos que evitam contato visual. A guerra silenciosa tinha começado.
— Doutora Aslan. — Um residente me alcançou, tímido. — Há jornalistas tentando entrar na ala de cardiologia. Quer que a segurança intervenha?
— Imediatamente. — respondi, sem olhar pra ele. — E mande o departamento jurídico revisar qualquer autorização de imagem.
A primeira regra da sobrevivência: não mostrar rachaduras.
Cheguei à sala dos rounds e comecei o que sabia fazer de melhor. Apresentações técnicas, condutas, trocas rápidas. A equipe me olhava com aquele misto de respeito e curiosidade. Uma enfermeira comentou algo em voz baixa, ouvi a palavra viúva. Fingi que não ouvi.
Em vez disso, corrigi um prontuário e finalizei:
— O paciente do 304 precisa de ajuste na dose de anticoagulante. E lembrem-se: a cirurgia é prioridade, não o circo.
Silêncio total.
Foi quando Adrian apareceu na porta. Jaleco impecável, olhar calmo. Ele esperou todos saírem antes de falar.
— Eu vi o que estão dizendo. — disse, baixando o tom. — Mas também vi a forma como você manteve o controle. Impressionante.
Ergui os olhos, sem tempo pra lisonjas.
— Controle é só a versão polida do pânico, doutor.
Ele sorriu de canto.
— Mesmo assim, você o domina melhor que qualquer um.
Respirei, cansada.
— A imprensa vai querer uma resposta.
— E você vai dar uma. — Ele se aproximou um passo. — Fria. Técnica. Precisa. Uma nota conjunta do hospital e do seu nome pessoal. Eu posso redigir.
— Eu mesma redijo. — respondi, automática.
— Então me deixa revisar. — completou. — Médicos juntos soam mais fortes do que uma vítima isolada.
Aquela frase ficou na minha cabeça. “Vítima isolada.” Eu já tinha sido isso. Não seria de novo.
Assenti.
— Certo. Vamos fazer parecer que o mundo está gritando, e nós, operando em silêncio.
Ele sorriu, genuíno. E, por um instante, o caos lá fora pareceu distante.
***
Duas horas depois, na sala de comunicação do hospital, gravei o pronunciamento. Sem emoção. Sem lágrimas. Sem desespero.
— “Sou a Dra. Lianna Aslan, cirurgiã cardiovascular. Minha prioridade é salvar vidas, não participar de narrativas. O caso mencionado foi técnico, ético e executado conforme protocolo. O restante é ficção. E eu não participo de ficções.”
Cruzei os braços.
— Seu pai sempre se incomoda quando uma mulher sem sobrenome chega mais longe do que ele gostaria.
A faísca apareceu nos olhos dela.
— Você acha mesmo que pode sobreviver sozinha nessa instituição, Aslan? Aqui, alianças valem mais que bisturis.
Dei um passo à frente, voz baixa, firme o bastante pra cortar o ar entre nós:
— Eu sobrevivo com bisturis, Viviane. E você devia tomar cuidado pra não acabar na mesa de um.
Ela arregalou os olhos, surpresa com a ousadia, mas não recuou.
— Você se acha intocável.
— Não. — interrompi, já pegando minha pasta. — Eu só aprendi a não sangrar em público.
Abaixei o tom, bem no ouvido dela:
— E se o hospital quiser se envergonhar de mim por fazer o que é certo… o problema é dele. Não meu.
Deixei-a parada no corredor, com aquele sorriso falso congelado.
Atrás de mim, ouvi o estalo dos saltos retomando o ritmo nervoso. Ela podia até tentar me derrubar, mas eu já estava acostumada com quedas mais altas.
Segui em direção à ala cirúrgica. O reflexo no vidro me mostrou exatamente o que eu precisava ver: uma mulher ferida, sim, mas de pé. E enquanto o mundo tentava me transformar em manchete, eu me transformava em munição.
A guerra estava declarada. E, dessa vez, eu ia lutar em silêncio e vencer em voz baixa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!