POV Lianna
O portão eletrônico se abriu com aquele som metálico que parecia gritar o cansaço do dia. A casa estava mergulhada em meia-luz, o tipo de silêncio que antecede uma pergunta difícil. Joguei as chaves na bancada e tirei o jaleco com o mesmo peso de quem se despe de uma armadura.
— Mãe… — a voz de Selena veio suave do corredor.
Ela estava sentada no sofá, o tablet no colo, os olhos marejados. No canto, Selin, mais calado que o habitual, mexia num brinquedo só pra parecer ocupado. Meu estômago afundou.
— O que aconteceu? — perguntei, já sabendo.
Selena olhou pra mim, e a voz dela saiu trêmula, frágil demais pra uma menina de sete anos.
— As crianças… disseram que você é famosa. Que apareceu na internet. Que… que você matou o papai.
Silêncio.
Selin largou o brinquedo com força.
— Eles chamaram a gente de mentirosos! Disseram que nosso pai morreu e você é uma bruxa!
O sangue me gelou. Meu nome, o rosto deles, tudo virando munição na boca de estranhos.
Ajoelhei-me diante deles.
— Ei, olhem para mim. — toquei os rostinhos delicados, sujos de lágrimas e raiva. — Nada do que dizem muda o que a gente é, entenderam?
Selin desviou o olhar.
— Por que estão dizendo essas coisas, mãe?
Pausa. Respirei fundo, cada palavra escolhida com cuidado.
— Porque tem gente que não sabe a verdade. E quando não sabem, inventam. Mas o que importa é o que a gente sabe aqui — coloquei a mão sobre o peito dele —, e o que sente aqui — toquei o coraçãozinho da Selena. — E isso ninguém pode mudar.
Eles assentiram devagar, mas a dor ainda latejava no olhar.
Tentei tornar o ar mais leve.
— Vamos jantar. Prometo fazer macarrão com queijo — o sorriso forçado escapou, meio quebrado.
Durante o jantar, o clima ficou estranho. As risadas vinham curtas, artificiais. A televisão ligada no mudo exibia minha própria imagem no canto da tela, um noticiário de fundo com a manchete que me transformava em personagem. Selin olhava, quieto demais. Selena, fingindo desenhar, observava de canto de olho.
— Terminaram as tarefas? — perguntei, tentando resgatar a rotina.
— Não consegui. — Selin respondeu, baixo. — Fiquei pensando no que disseram.
Meu coração se apertou.
— Então vamos fazer juntos. — propus, tentando esconder o tremor na voz. — Que tal escrever uma carta para professora? Assim ela entende o que aconteceu, e você mostra que não tem vergonha de quem é.
Ele hesitou.
— Carta?
— Linda, mas fria. Sempre tem esse tipo. Sobe na vida e esquece de onde veio.
Abri o portão com calma.
— Boa noite. — falei, sorrindo com os olhos. — Sabe o que dizem? Que a inveja é uma doença silenciosa. Espero que vocês se tratem cedo, antes que atinja o coração.
Elas empalideceram, balbuciando um “não era nada pessoal”.
— Imagino. — finalizei. — Mas da próxima vez que quiserem falar de mim, falem mais baixo. Meus filhos têm sono leve.
Fechei o portão e senti o corpo inteiro estremecer. A raiva não era grito, era aço.
***
Horas depois, enquanto guardava roupas no quarto das crianças, um papel caiu da prateleira. Abaixei-me e encontrei uma foto amassada. Era antiga. Zayden sorrindo, eu encostada nele, o mundo ainda inteiro.
O coração falhou um compasso.
Sentei na beira da cama, olhando aquela lembrança como quem encara um fantasma com cheiro de perfume esquecido. Os olhos dele ainda tinham aquele brilho, o mesmo brilho que, um dia, eu confundi com amor.
Fechei os olhos e dobrei a foto. Nada de rasgar. Ainda não. Guardei no envelope do processo do divórcio. Era simbólico: um corpo que se enterra com as próprias mãos.
Levantei, olhei pro espelho e sussurrei pra mim mesma:
— Acabou, Lianna. Agora é pela sua vida. E pelos deles.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!