POV Lianna
Respirei fundo, tentando colocar o coração de volta no lugar. Adrian seguia ao meu lado, discreto, com aquele silêncio de quem entende mais do que fala.
— Eu não sei o que responder a isso, Adrian — admiti.
Ele olhou pra mim, com a serenidade que sempre me desconcertava.
— Então não diz. Só mostra. Você já fez isso hoje.
Tentei sorrir, mas o ar ainda vinha pesado. Foi nesse instante que ouvi a voz mais familiar do mundo:
— Se eu não te conhecesse, diria que parece uma bomba-relógio prestes a explodir.
Virei. Valentina. Meu alívio instantâneo. Ela vinha com a prancheta debaixo do braço e aquele olhar de quem sabia que o caos tinha nome e sobrenome.
— Finalmente — sussurrei, puxando-a pra um abraço rápido. — Que bom que você veio.
— Claro que vim. — Ela respondeu, arqueando uma sobrancelha. — Alguém tem que te impedir de matar o novo investidor do hospital.
Revirei os olhos.
— Por favor, não começa.
Valentina suspirou e olhou em volta, certificando-se de que ninguém escutava.
— Eu não queria ser a portadora das más notícias, mas… o novo investidor — ela fez uma pausa dramática — pediu pessoalmente para alocarem uma sala pra ele aqui.
— Aqui onde? — perguntei, com a voz tensa.
Ela hesitou por um segundo.
— …ao lado da sua.
O silêncio que seguiu foi quase cômico, se não fosse trágico.
— Ele fez o quê? — perguntei, incrédula.
— Pediu ao diretor. Com prioridade. E o diretor achou ótimo pra “facilitar a comunicação entre setores”. — Valentina imitou o tom burocrático com ironia. — Comunicação, Lianna. Você acredita?
Passei a mão no rosto, tentando conter o impulso de gritar.
— Claro. Porque nada diz “ambiente de trabalho saudável” como dividir parede com o homem que destruiu a minha vida.
Valentina bufou.
— Posso garantir que já mandei e-mail pro jurídico. Isso é assédio territorial, no mínimo.
Soltei o ar devagar, tentando focar.
— Depois eu lido com isso. Agora… eu só quero sair daqui.
Como se o universo tivesse um senso de humor doentio, o celular vibrou nesse instante.
Era a babá.
— Dona Lianna, desculpe ligar nesse horário — a voz dela veio trêmula —, mas aconteceu uma emergência. Minha mãe teve um pequeno acidente doméstico. Preciso sair agora para o hospital.
O mundo voltou a girar rápido demais.
— Claro, vá. Não se preocupe. Eu já estou indo para casa. — respondi, tentando manter a calma. — Fique tranquila, e me avise se precisar de algo.
Desliguei e olhei pra Valentina.
— Tenho que ir. As crianças.
Ela assentiu.
— Quer que eu te leve?
— Não. Eu dirijo melhor com raiva.
A pergunta veio sussurrada, quase íntima. O tipo de provocação que ele sempre usava.
Cruzei os braços.
— Se eu me importasse, teria te procurado. O que eu sinto agora é nojo. E um pouco de pena.
Ele arqueou a sobrancelha, o sorriso se desfez.
— Pena?
— Sim. — dei um passo pra frente, encarando-o de igual pra igual. — Porque enquanto você tá aqui jogando com manchetes e dinheiro, sua amante, namorada, mulher, o que quer que ela seja, tá sozinha num quarto de hospital, se recuperando de uma cirurgia delicada. E sabe o que é pior? Você não faz ideia de como ela está.
O olhar dele endureceu.
— Não é assunto seu.
— Não? — rebati, a voz subindo um tom. — Ela é minha paciente. E eu me importo com ela. Mais do que você jamais se importou.
Ele respirou fundo, o maxilar travado.
— Eu não sabia que ela precisava de mim.
— Pois devia saber. — retruquei, gelada. — Mas é sempre assim, não é? Você só aparece quando o orgulho sangra. Nunca quando alguém realmente precisa.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. O olhar dele vacilou, e por um instante eu vi algo humano ali... culpa, talvez. Mas durou pouco. Ele recompôs o rosto e disse, frio:
— Eu não preciso de lições de moral vindas de você.
— Claro que não. — sorri de canto. — Porque pra aprender algo, seria preciso humildade. E essa foi a única coisa que o dinheiro não comprou pra você.
Abri a porta do carro e olhei pra ele uma última vez.
— Vai cuidar de Camille, Zayden. E se sobrar tempo, cuida da sua consciência também. Ela tá pior que qualquer paciente que eu já operei.
Entrei no carro e bati a porta. Pelo retrovisor, vi ele parado, imóvel, o rosto coberto pela sombra do estacionamento. E por um breve segundo, antes de dar partida, vi o que nunca pensei ver de novo nos olhos dele: vazio.

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