POV Lianna
O refeitório do hospital tinha aquele cheiro característico de sopas mornas, café requentado e desespero silencioso, um aroma que sempre acompanhava plantões longos demais. Eu me sentei na mesa mais afastada, no canto, onde ninguém costumava ir. O lugar era frio, afastado da luz central, e isso combinava perfeitamente com o buraco no meu peito.
Eu só queria… silêncio. Só isso. Paz, por cinco minutos. Ou até dois. Talvez até um. Mas paz não é algo que existe na minha vida.
Não mais.
A bandeja estava na minha frente, com uma sopa que eu não lembrava de ter pegado. Eu girava a colher dentro dela, em círculos, como se aquilo pudesse me hipnotizar até apagar as últimas duas horas da minha existência.
O beijo.
A força dele.
O tapa.
A vergonha.
A raiva.
A sensação de estar nua duas vezes, quando ele entrou no vestiário e quando arrancou minha defesa na sala dele. Eu tremia por dentro, mas por fora… eu estava petrificada.
Foi assim que Adrian me encontrou.
— Lianna?
Levantei os olhos devagar, como quem emerge debaixo d’água. Ele estava parado do outro lado da mesa, com a bandeja nas mãos, o jaleco aberto, o rosto levemente cansado, mas os olhos… os olhos eram alerta. Quase afiados.
Ele me estudou por três segundos. Três segundos foram suficientes para ele entender tudo que eu tentava esconder.
— Posso? — ele perguntou, indicando o assento à minha frente.
Assenti. Ele sentou sem tirar os olhos de mim.
— Você está… diferente. — disse ele, com cautela. — Não sei se é cansaço ou outra coisa, mas… seu olhar. Ele não está aqui.
Eu respirei fundo, mas não disse nada.
— A cirurgia correu bem? — ele tentou, num tom suave, tentando puxar normalidade.
— Sim. — respondi, num fio de voz. — Teve uma pequena complicação, mas… foi resolvido.
Ele esperou mais. Paciente. Respeitoso. Ele sempre esperava que eu mesma escolhesse quando falar.
Mas hoje… eu não sabia como escolher.
— Conseguiu resolver o problema…? — ele perguntou então, com delicadeza. — Ele… foi embora?
Minha mão apertou a colher.
Tarde demais.
Ele viu.
— Lianna… — seu tom caiu — …o que aconteceu?
Balancei a cabeça, tentando segurar alguma dignidade, mas algo em mim já tinha quebrado antes mesmo do tapa.
— Nada. Só… foi um mal-entendido.
— Não mente pra mim. — ele disse, e a firmeza na voz dele fez meu coração estremecer.
Levantei os olhos, chocada com o comando, e encontrei um Adrian que eu nunca tinha visto. Um Adrian calmo, sim, mas com algo queimando por trás dos olhos, uma determinação sombria, quase… pessoal.
— Lianna. — ele disse meu nome como se estivesse tocando minha pele — Você está tremendo.
Eu soltei a colher. Ela tilintou contra a porcelana.
Merda.
Ele inclinou-se um pouco para a frente.
— Olha para mim.
Eu olhei. E bastou isso para meu peito abrir uma fissura. Ele estendeu a mão… não para me tocar, mas para deixar ali, no meio da mesa, perto da minha. Um gesto simbólico. Oferecido. Disponível.
Eu engoli seco.
— Zayden… — minha voz falhou — …ele entrou no vestiário.
O corpo de Adrian congelou.
— Como assim… entrou no vestiário?
Engoli de novo, sentindo a garganta arder.
— Eu saí da cirurgia exausta. Fui tomar banho. Estava… — minha voz ficou tão baixa que mal saiu — …estava nua. E quando tirei a toalha… ele estava lá. Parado. Me olhando.
Silêncio.
Um silêncio que não era neutro. Era o silêncio de uma tempestade prestes a explodir.
Adrian encostou as mãos na mesa com força controlada.
— Ele ultrapassou um limite. — disse, como se estivesse tentando se manter no lugar. — Um limite básico. Um limite fundamental. Isso é—
— Não. — eu cortei rápido. — Por favor. Não coloca nome nisso.
Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Lianna… isso é assédio.
A palavra caiu como um peso de chumbo entre nós. Eu estremeci.
— Eu não posso ter mais um escândalo com meu nome. — sussurrei. — Eu não posso. Eu tenho filhos. E os gêmeos… eles já sofreram tanto… Eu… eu não posso.
Ele falou:
— Mas não deixa isso te calar.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!