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Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe! romance Capítulo 33

POV Lianna

O refeitório do hospital tinha aquele cheiro característico de sopas mornas, café requentado e desespero silencioso, um aroma que sempre acompanhava plantões longos demais. Eu me sentei na mesa mais afastada, no canto, onde ninguém costumava ir. O lugar era frio, afastado da luz central, e isso combinava perfeitamente com o buraco no meu peito.

Eu só queria… silêncio. Só isso. Paz, por cinco minutos. Ou até dois. Talvez até um. Mas paz não é algo que existe na minha vida.

Não mais.

A bandeja estava na minha frente, com uma sopa que eu não lembrava de ter pegado. Eu girava a colher dentro dela, em círculos, como se aquilo pudesse me hipnotizar até apagar as últimas duas horas da minha existência.

O beijo.

A força dele.

O tapa.

A vergonha.

A raiva.

A sensação de estar nua duas vezes, quando ele entrou no vestiário e quando arrancou minha defesa na sala dele. Eu tremia por dentro, mas por fora… eu estava petrificada.

Foi assim que Adrian me encontrou.

— Lianna?

Levantei os olhos devagar, como quem emerge debaixo d’água. Ele estava parado do outro lado da mesa, com a bandeja nas mãos, o jaleco aberto, o rosto levemente cansado, mas os olhos… os olhos eram alerta. Quase afiados.

Ele me estudou por três segundos. Três segundos foram suficientes para ele entender tudo que eu tentava esconder.

— Posso? — ele perguntou, indicando o assento à minha frente.

Assenti. Ele sentou sem tirar os olhos de mim.

— Você está… diferente. — disse ele, com cautela. — Não sei se é cansaço ou outra coisa, mas… seu olhar. Ele não está aqui.

Eu respirei fundo, mas não disse nada.

— A cirurgia correu bem? — ele tentou, num tom suave, tentando puxar normalidade.

— Sim. — respondi, num fio de voz. — Teve uma pequena complicação, mas… foi resolvido.

Ele esperou mais. Paciente. Respeitoso. Ele sempre esperava que eu mesma escolhesse quando falar.

Mas hoje… eu não sabia como escolher.

— Conseguiu resolver o problema…? — ele perguntou então, com delicadeza. — Ele… foi embora?

Minha mão apertou a colher.

Tarde demais.

Ele viu.

— Lianna… — seu tom caiu — …o que aconteceu?

Balancei a cabeça, tentando segurar alguma dignidade, mas algo em mim já tinha quebrado antes mesmo do tapa.

— Nada. Só… foi um mal-entendido.

— Não mente pra mim. — ele disse, e a firmeza na voz dele fez meu coração estremecer.

Levantei os olhos, chocada com o comando, e encontrei um Adrian que eu nunca tinha visto. Um Adrian calmo, sim, mas com algo queimando por trás dos olhos, uma determinação sombria, quase… pessoal.

— Lianna. — ele disse meu nome como se estivesse tocando minha pele — Você está tremendo.

Eu soltei a colher. Ela tilintou contra a porcelana.

Merda.

Ele inclinou-se um pouco para a frente.

— Olha para mim.

Eu olhei. E bastou isso para meu peito abrir uma fissura. Ele estendeu a mão… não para me tocar, mas para deixar ali, no meio da mesa, perto da minha. Um gesto simbólico. Oferecido. Disponível.

Eu engoli seco.

— Zayden… — minha voz falhou — …ele entrou no vestiário.

O corpo de Adrian congelou.

— Como assim… entrou no vestiário?

Engoli de novo, sentindo a garganta arder.

— Eu saí da cirurgia exausta. Fui tomar banho. Estava… — minha voz ficou tão baixa que mal saiu — …estava nua. E quando tirei a toalha… ele estava lá. Parado. Me olhando.

Silêncio.

Um silêncio que não era neutro. Era o silêncio de uma tempestade prestes a explodir.

Adrian encostou as mãos na mesa com força controlada.

— Ele ultrapassou um limite. — disse, como se estivesse tentando se manter no lugar. — Um limite básico. Um limite fundamental. Isso é—

— Não. — eu cortei rápido. — Por favor. Não coloca nome nisso.

Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.

— Lianna… isso é assédio.

A palavra caiu como um peso de chumbo entre nós. Eu estremeci.

— Eu não posso ter mais um escândalo com meu nome. — sussurrei. — Eu não posso. Eu tenho filhos. E os gêmeos… eles já sofreram tanto… Eu… eu não posso.

Ele falou:

— Mas não deixa isso te calar.

Eu estremeci. Porque eu sabia. Eu sabia.

— Ele não vai parar, Lianna. — Adrian concluiu. — E eu não vou ficar parado assistindo você desmoronar por culpa de alguém que não soube te amar.

Minhas mãos tremeram. Ele viu. E, sem tocar, aproximou a mão da minha, como se estivesse oferecendo espaço, abrigo, sem invadir.

Um gesto tão simples. Tão cuidadoso. Tão… diferente.

— Eu não quero que você tenha medo dele. — Adrian murmurou.

— Eu não tenho medo dele. — menti.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Lianna…

Suspirei. Longo. Exausto. Dolorido.

— Eu tenho medo do que ele desperta em mim. — confessei, por fim.

Os olhos de Adrian se apertaram. Ele entendeu tudo sem que eu precisasse explicar mais nada.

— Você não está sozinha. — repetiu, como um voto silencioso. — Se algum dia você quiser falar… ou se quiser apenas sentar e respirar… eu fico. O tempo que for.

E eu… Não soube o que responder. Porque fazia muito, muito tempo que alguém dizia algo assim pra mim. E fazia ainda mais tempo que eu acreditava.

Ficamos em silêncio por um instante. Mas o silêncio com Adrian não era sufocante. Era um silêncio que me deixava respirar.

Até que a porta do refeitório abriu. E eu senti a espinha gelar.

Zayden.

Ele estava observando. Lá de fora. Da porta de vidro. Sério. O olhar preso em mim.

Meu corpo congelou.

Adrian seguiu meu olhar. Quando viu Zayden parado ali, olhando como se marcasse território… os olhos dele mudaram. Não de raiva. Mas de proteção silenciosa.

Ele pousou a mão sobre a mesa, mais perto da minha. Não tocou. Mas mostrou que estava ali.

Do outro lado da porta, Zayden travou o maxilar.

Raiva. Ciúme. Descontrole.

Eu engoli seco.

— Ele está te observando. — Adrian murmurou.

— Eu sei. — respondi, sem olhar de volta.

E pela primeira vez desde o beijo no consultório…

Eu tive medo. De verdade.

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